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afonsonunes

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18 Dez, 2011

A invasão da Barra

Confesso que não sei bem onde fica a Barra mas não devo enganar-me muito se disser que é nos domínios de S. Julião, o santinho que sempre teve uma predilecção por fortes destinados a fortes personalidades que, por serem tão fortes, nunca mereceram qualquer castigo que levasse à sua retenção naquelas fortíssimas instalações.

Isso não significa que gente de altíssima categoria, não gostasse de permanecer ali umas tantas horas por dia, ou por noite, quer em puro e descontraído repouso, quer a pretexto de desenvolver ali um trabalho de alta produtividade, no isolamento da sua segurança, garantia de que nem a melhor contra informação ali entraria.

Neste domingo, logo pela manhãzinha, dia em que o país tinha de pensar muito, através dos seus melhores pensadores, estes começaram a chegar e a bater à porta, ou ao portão, sendo de imediato observados pelo santinho que estava a pau, lá dentro. É que, nestes tempos em que andam desconfianças de todo o tipo no ar, nem o santinho dorme.

Ao ver tantos desfardados e, ainda por cima, não engravatados, de colarinhos desapertados, quase de peito ao léu, apesar do ventinho cortante, S. Julião torceu o nariz, mas veio ao de cima o seu sentido humanitário. Não podia deixar de ser uma tentativa de um grupo de vítimas da crise que, por enquanto, só reclamava.

Claro que o grupo reclamava a abertura do portão, ou da porta, sei lá, mas o santinho entendeu que era mais seguro levar alguns mantimentos disponíveis na cozinha, preparando-se para dar a suas ordens internas, no sentido de o pessoal pegar numas sandes e água com fartura para entregar lá fora.

Sim, porque nunca se sabe quando as acções bem-intencionadas acabam em desordem e, quantas vezes, em coisas bem piores. Portanto, nada de abrir, pois é sabido que o seguro morreu de velho. Porém, eis que chega alguém que, com uma voz forte e determinada, que o santinho logo reconheceu, gritou: Portas, abram…

Aí tudo mudou. S. Julião ficou encavacado, pois o tom de voz já de si era uma censura, se não uma ameaça, como tantas vezes ouvira nos tempos deste antigo inquilino. Apesar de não compreender a extensão da comitiva, apressou-se a dar a ordem requerida. Reparou melhor e, afinal, eles não vinham assim tão mal vestidos.

Já lá dentro, o antigo inquilino apressou-se a esclarecer o anfitrião do motivo da estadia que, apesar de santo, não deixou de praguejar por entre dentes, enquanto se benzia, ao ser-lhe entregue o menu para o dia inteiro, muito mais extenso e suculento do que as sandes e a água que estava prestes a sair.

Não havia que discutir pois os milagres dos santos não valem nada contra os homens milagrosos. E o que ali ia acontecer, não havia a menor dúvida, era o milagre de obrigar a inverter a função dos bancos. Estes não têm dinheiro para emprestar aos clientes, então os clientes terão de entregar o seu dinheiro aos bancos.

Nesta Barra de S. Julião, onde as ondas rebeldes se atiram contra ela com violência, vai falar-se muito porque, enfim, é difícil e é muito chato, estar ali onze horas a comer calado. Não acredito que haja quem coma e cale durante tanto tempo, ouvindo apenas o roncar do mar que não se cala, por mais que digam que ele está calminho.

A paciência de santo de S. Julião vai fazer com que tudo acabe em bem, pois não há ali o perigo de alguém se insubordinar acossado pela fome ou por falta dinheiro. Comida com fartura ainda ele tinha na despensa, apesar dos cortes. Quanto a dinheiro, ele não ouviu falar disso. Sinal de que o assunto que ali os trouxera não era o deles.

Mas era o dinheiro dos outros com certeza. Segundo os cálculos de S. Julião, baseados numas dicas que foi ouvindo atrás da porta, as conversas andaram muito à volta do corta ali, mas não cortes aqui, que isso é meu. Alguns deles até falavam muito baixinho, de tal forma que o santinho acabou por ficar na dúvida se ele próprio não seria cortado também.

Mas, no final da sessão ‘palrativa’, já noite dentro, o santinho ficou a saber que no início do próximo ano, eles iam falar do mesmo assunto. E chegar às mesmas conclusões desta. Só que nessa, noutro local, nem a Barra, nem S. Julião, estarão presentes, com certeza.