Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

A democracia deu-nos a liberdade de perguntar o que nos apetece, a quem nos dá na real gana, mesmo que saibamos que nunca vamos obter uma resposta de muitos daqueles que interrogamos. Do mesmo modo que a democracia deu a liberdade a alguns de nos massacrarem quase diariamente com as suas perrices de sabedoria exclusiva.

Quem pergunta quer sempre saber alguma coisa, que mais não seja o que pensa o interrogado sobre determinado assunto, apesar de o perguntador ter as suas ideias bem assentes. O nosso conhecimento não invalida a curiosidade de o podermos confrontar com outros, mesmo não querendo abdicar do nosso.

Mas há quem se ofenda ou se indigne por alguém perguntar o que não lhe agrada. Por julgar que alguém, sabendo a resposta de antemão, faz perguntas desnecessárias, com o objectivo de evidenciar o contrário do óbvio. Porque o óbvio é o seu interesse, o seu pensamento, a sua teimosia em querer que se acredite cegamente no seu raciocínio.

Depois, o mundo pode dar uma volta completa sobre o seu eixo, que esses pensadores de ideias fixas jamais perderão o seu tempo a ver o que mudou sob os seus pés. O que esses nunca verão, é evolução de quem, à sua volta, soube analisar novas realidades, ou outras maneiras de avaliar as coisas e as pessoas que os rodeiam.   

Manda o bom senso que nunca tenhamos a pretensão de que só nós é que o temos, principalmente, se olharmos à nossa volta e virmos muitos a pensar em sentido contrário. É que podemos estar a comportarmo-nos exactamente da maneira que tão teimosamente criticamos ou nos insurgimos com eles.

Agora, principalmente agora, neste dealbar de um mundo de princípios, mesmo há muito em decadência, para um mundo em que tudo é posto em causa, com o uso dos mais insólitos argumentos, é de uma ousadia injustificada, ter a pretensão de que todos os princípios são imutáveis para a eternidade.

Porque aquilo que ontem era, hoje já não é. Quem ontem não tinha razão, pode passar a estar carregado dela no dia de hoje. Muitos dos erros que se apontam hoje aos homens e mulheres de ontem, foram cometidos dentro de procedimentos que, então, ninguém ousou contestar, ou apontar dúvidas sobre eles.

Sábios são aqueles que sabem analisar os factos tendo em consideração as circunstâncias em que eles ocorreram. Pelo contrário, quem se esquece do passado para apenas analisar os factos à luz das suas consequências no presente, ou está a iludir-se a si próprio, ou está a tentar iludir alguém, sobre a sua capacidade analítica.

A omissão é irmã gémea da mentira. Quando se abraça a primeira já se está em cima da segunda. Portanto, melhor será que se não criem grandes intimidades com qualquer delas. Ou, pelo menos, em caso de dúvida, perguntar quem são elas. Perguntar não ofende.