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afonsonunes

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O meu subconsciente tem coisas do arco-da-velha quando descamba para o lado de uma certa tendência para a parvoíce, se é que não posso mesmo dizer para a insolência, embora um bocadinho inclinado, só um bocadinho, para a indecência. Como eu sei o que sou e o que quero, estou sempre a recomendar a mim próprio uma grande dose de paciência.

Mas há uma coisa que não admito sequer. É que eu pense minimamente em meia dose de inocência, porque isso me parece exclusivo de outras pessoas de que oiço falar constantemente. Porque a inocência não se infiltra em pessoas normais como eu, mas sim em personalidades que têm tudo, até a mente, de mentir, fora do lugar.  

Mas vamos lá ao que interessa que se faz tarde, e o título destas linhas já está a recalcitrar porque diz que não tem nada a ver com estas considerações de ordem desalinhada. Título que me foi sugerido por uma deambulação imprevisível e despropositada ao mundo da ópera, onde penso que já se cantou qualquer coisa semelhante ao vígaro.

Posso estar a confundir com o Fígaro, pois as minhas confusões não param de me trair a toda a hora, até porque os cantos que me enchem a mente são de natureza muito diferente. Muito contra a minha vontade, confesso, porque eu gostava mesmo era de ser uma pessoa toda voltada para a nobreza e para os grandes salões onde se fala dessas coisas.

Realmente tudo isto vem a propósito de, no dia de hoje, ter ouvido falar com muita insistência no Fígaro da Madeira e no Fígaro do Continente, dois grandes protagonistas de uma opereta que já está a dar volta ao mundo lusitano. Eu digo opereta, mas não sei bem se não devia dizer ópera, tal como tenho dúvidas se não devia dizer vígaros em lugar de fígaros.

Eu sei que este não é propriamente o palco ideal para dizer estas coisas, mas também sei que toda a gente não ignora que, para palavras loucas, orelhas moucas. Aliás, é precisamente isso que eu faço muitas vezes, com muito sucesso pessoal. Vígaro cá, Vígaro lá, é, nos dias de hoje, o grito de guerra de muita gente que já sentiu uns arrepios danados.

Gente que, certamente, com mais ou menos razão, vai ser ferida nos ouvidos e nos bolsos, pelo forte vendaval das orquestras, insular e continental, ao atacarem forte e feio, conjuntamente, os espectadores que, sem gostarem de óperas ou operetas, vão pagar um elevadíssimo preço pelos bilhetes que lhes vão impingir.      

Contudo, perdão, sem nada, o próximo ano será o ano da felicidade de podermos pensar num bom futuro, precisamente, enquanto estrebuchamos com a corda na garganta a levar-nos ao limite do sofrimento presente. Presente e futuro, duas certezas que, de certeza, já estão garantidas por quem de direito.

Para quem, como eu, não pode deixar de pensar na ópera do Vígaro cá, vigaro lá, é um grande consolo saber que, não comendo hoje, podemos encher a malvada daqui a não sei quantos anos. Mas tudo vale a pena, mesmo que a fome não seja pequena. Temos de ter esperança nos vígaros que vão aparecer, pois não há dois vígaros iguais.

Entretanto, alguém está a pensar em fazer um grande encontro de vígaros em pleno Atlântico, a meio caminho entre a Madeira e o Continente. As inscrições estão reservadas aos apoiantes e beneficiários dos dois grandes líderes, prevendo-se que seja necessário fretar muitos paquetes iguais aos que passam o fim de ano com o Funchal na frente.

Por enquanto desconhece-se o programa desse encontro, tipo concentração de cruzeiros, onde, vígaros para cá, vígaros para lá, de certeza que ninguém vai cair ao mar, apesar dos brindes infindáveis e das promessas de que os vígaros unidos nunca mais serão vencidos. E eles sabem bem do que falam, porque o passado não tem memória curta.

Mas já está decidido que o lançamento do gigantesco fogo-de-artifício do encerramento da concentração, será feito ao som da fenomenal orquestra da ópera vígaro cá, vígaro lá, com os dois super tenores, o de cá e o de lá, a estoirarem os ouvidos dos seus convidados. Tudo no gigantesco palco do meio do Atlântico, onde não haverá ninguém à volta a manifestar-se.  

Quem não estava para aí voltado ainda está a tempo de se inscrever. Basta decidir-se a mudar de ideias. É uma demonstração de patriotismo, com a certeza de que alguém pagará todas estas e outras demonstrações de vigarice.