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afonsonunes

afonsonunes

28 Dez, 2011

Está na hora

 

No dealbar deste ano de triste memória é chegada a hora de deitar contas à vida e decidir se queremos continuar neste gigantesco jardim-de-infância em auto gestão, onde os adultos, mesmo que entram e saiam, não têm voz activa quando as crianças se divertem a tomar decisões.

E o mais curioso é que nem sequer são as crianças mais crescidas a fazer valer a sua experiência. As mais novas, muito mais irrequietas, não param para pensar, nem para ouvir os avisos seja lá de quem for. A vontade delas é lei e as suas leis não são para discutir, mas sim para cumprir.

Apesar de se dizer à boca cheia que somos um país de velhos, olhamos para quem tem voz activa nas discussões e decisões políticas e vemos quase exclusivamente gente nova que, tanto pela conversa, como pelas decisões, mais parece que estão agora a iniciar os seus estudos.

Olho para o governo e vejo uma ou outra cara mais madura, mas a grande maioria, não sei porquê, parece-me vê-los com os seus bibes da pré-primária, em fila indiana, pegando na ponta do bibe do que vai à sua frente, para se não tresmalharem desordenadamente.

Olho para o maior partido da oposição e vejo um líder que me parece o antídoto do chefe do governo, quando estava na oposição. Este desancava a torto e a direito, por vezes sem maneiras, em todas as circunstâncias, enquanto aquele, agora é todo delico-doce e cheio de mesuras.

Um menino bem comportado, que quer chegar lá, mas apenas quando a fruta cair de podre. Não quer bater na fruta provocando o seu apodrecimento. Não, porque quer ser bonzinho, não quer errar, mas corre o risco de ser riscado antes do tempo que ele julga que tem.

À volta de um e de outro, andam aqueles fedelhos que se maneiam muito e falam exuberantemente, mas lá no fundo, nem umas gotas de sumo se aproveitam. Gente que me faz pensar que o futuro do país nunca mais poderá contar, senão com irreverência e precipitação.

Mas, quando olho para os restantes partidos, o panorama não é melhor. Muita garganta, mas muito pouca sensatez. A incoerência das ideias e os pontapés na gramática são o forte deles. O país não pode deixar de ser pobre no meio de toda esta pobreza de gente a nadar em dinheiro.

Se me ponho a olhar para aqueles entes senhoriais engravatados, que tomam conta de qualquer coisa pública, onde dizem que são eles que mandam, é confrangedor ver os seus tiques de importância, misturados com profunda ignorância, perante o elementar que se lhe exige.

Em qualquer lado, o que vejo é uma geração de novatos que gostam de se pôr em bicos dos pés, para que se olhe para eles como génios do seu partido em busca da oportunidade de serem puxados para cima por alguém que eles adulam perdidamente.

Onde estão os homens experientes e sensatos, mesmo os poucos que mantiveram as mãos limpas apesar do muito que trabalharam. É verdade que andam por aí muitos desse tempo, do tempo daqueles, mas esses nunca deviam ter nascido. O país seria outro.

Os homens feitos e sérios desapareceram não se sabe para onde. Provavelmente, envergonhados com as garotices que gravitavam à volta deles. Provavelmente, enojados com os vexames que a canalha não se cansava de lhes pregar a toda a hora.

Está na hora de reflectir. Está na hora de se ver como é. Como foi e como está a ser, é que não pode ser.