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afonsonunes

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17 Out, 2008

O medo dos heróis

 

 
Uma viagem é sempre um prazer, para além de outras motivações que possamos encontrar no destino que nos propusemos atingir. Há quem junte a esse prazer a realização de um ou outro negócio, que compense o dispêndio da viagem. Depois, há quem parta alegremente triste, ou tristemente alegre.
Não sei porquê, mas estou a imaginar uma viagem aos Açores, fazendo de conta que tenho tudo pago. Viagem, bom hotel e, sobretudo, uma boa oportunidade de proferir umas bocas foleiras nas conversas de hotel, dirigidas a um dos viajantes que vai chegar mais tarde.
Sim, porque não há prazer maior para certos viajantes, que falar dos ausentes, mesmo intitulando-se heróis sem medo. Podiam falar na presença dos visados, ali como em outras conversas regulares, em outros locais, mas não. Quando os ausentes chegarem, os nossos heróis sem medo já estarão novamente de viajem, mas agora de regresso a casa.
Para além dessas conversas de bate e foge, lembrei-me que no centro dessa aventura alguém podia, entretanto, promover e vender um livro acabado de nascer, pois os contactos num hotel cheio de viajantes conhecidos, eram uma oportunidade impar de aquecer um negócio que depende de muitos factores mas, sem dúvida, da heroicidade de muitas atitudes do seu autor.
E os Açores, terra de brumas e mares revoltos, são um cenário onde o espectáculo promete e os negócios prosperam. Alegre-mente, para o autor. Triste-mente, para a ética de quem se proclama campeão de todas as virtudes, porque os corajosos pegam sempre os touros de frente. Mas, se os pegam de cernelha, ao menos, enfrentam-nos corpo a corpo.
Esta lembrança trouxe-me ainda a vaga ideia de que o autor do livro já tivera uma experiência de confronto mas, dessa vez, não foi ele que ficou alegre!...
Até eu fico triste quando penso em certas coisas. Coisas tristes…
Mas, há quem seja sempre alegre.