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afonsonunes

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Já o nosso almirante Pinheiro de Azevedo dizia que o povo é sereno. E já lá vão uns bons aninhos. Não eram fáceis os dias de então, com o povo nas ruas exigindo o que nunca havia tido. Mesmo teso, exigia respeito e direito à livre expressão das suas ideias e dos seus desejos.

Nesse tempo era a serenidade que dominava o discurso. Porque no meio da confusão, depois da revolução, a tendência era para os excessos provocados pelo rebentar das pressões internas de gente que nunca soubera o que era falar alto.

Não me lembro de ouvir alguém pedir ou falar de coesão. A coesão, então, criou-se imediatamente, quando os anseios de um povo teso, se vislumbraram ao fundo da rua, como luz cintilante ao fundo do túnel. Foi o rebentar desses anseios que fez a luz do túnel vir ao seu encontro. 

Hoje, fala-se muito de coesão para evitar a confusão. Pede-se coesão com medo que falte a serenidade, como se a coesão se pudesse criar quando se quer coesão incondicional dos tesos, mas se promove o antídoto da coesão na sociedade, através de decisões que só instalam a divisão.

Mas, também já há quem fale em revolução, para evitar a destruição. Porque ainda há quem se lembre da outra revolução que, supostamente, devia ter corrigido todos os erros que se cometem ainda agora e, inegavelmente, se agravam de dia para dia.

Promete-se muito calor nas ruas, porque o frio gela o estômago de muita gente, enquanto outros estômagos vomitam excessos inadmissíveis em qualquer altura, mas insuportáveis à vista de quem foi atirado para a mais injusta e escandalosa das misérias. Aqui, a coesão não tem lugar.

Hoje não se pede o que se pedia em setenta e quatro. Hoje, não se pede coesão àqueles que só vêem e só querem mais e mais dinheiro. Mas pede-se a quem o não tem, que seja coeso com os que o têm demais. Agora, todos falam alto. Muitos, que deviam estar calados, falam alto demais.

O nosso almirante de outros tempos faz cá muita falta para lembrar ao país que o povo é sereno, mesmo quando a luta escalda, ou o frio corta tanto nos corpos retalhados pela miséria, como os responsáveis pelo país lhes cortam o mais elementar direito à sobrevivência.

Não seria ele, o nosso almirante, a refugiar-se nas palavras de consolo no meio da desgraça que se adivinha, nem de medo perante a fumaça que se promete fazer nas ruas. Porque, realmente, o povo é sereno, quando alguém à sua frente lhe incute a serenidade que a confiança inspira.

O povo sabe estar coeso quando a justiça anda à sua volta. O povo está sempre sereno quando nenhum fantasma anda em voo rasante sobre cabeças que desconfiam de tudo o que lhes dizem e de todos aqueles que, em nome da verdade, os enganam permanentemente.

Para o nosso almirante, a verdade proclamada, era mesmo a verdade sentida. O povo era sereno de verdade, perante os perigos de então, e sê-lo-ia ainda hoje, perante o exemplo de um comandante firme e determinado a vencer todos os desafios, por mais difíceis que eles fossem.

Haja alguém que faça hoje com que o povo sinta que há coesão e serenidade entre todos, mas todos, os portugueses.