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afonsonunes

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É realmente muito desconfortável para certa gente encontrar-se numa situação em que não possa fazer o que lhe apetece, sobretudo quando se habituou a estar no topo de todas as berrarias, ou no galarim de todas as actividades, mesmo com vitórias obtidas sabe-se lá como.

Quando o lema é ‘aqui quem manda sou eu’ e ‘daqui ninguém me tira’, algo vai mal no reino da parvoíce e a coisa pode descambar para o torto, se quem de direito não responder no mesmo tom, aos arrogantes que julgam que o mundo começa e acaba à porta do seu jardim.

Em boa verdade, vamos tendo cada vez mais possantes que falam de poleiro na entrada do seu jardim, sempre que as coisas não lhes correm de feição, ou seja, cada vez que a sua real gana é contrariada. Chegam ao desplante de pedir a superior ajuda de quem os podia meter na ordem.

Esses possantes donos do seu jardim conseguem, com as suas tiradas ameaçadoras, meter na ordem quem tem exactamente o poder de os amansar, quer através da demonstração da inversão de papéis, quer através da definitiva reinstalação da legítima cadeia de poder.

Senão, nesses jardins insubordinados, os jardineiros acabam por se superiorizar a todas as instâncias do país, só porque entendem que ninguém é flor que se cheire senão eles próprios. Parece que já passa da hora de terminar este desafio de resultado viciado à partida.

Além disso, tudo isto é uma suja partida que se está a pregar a milhões de espectadores passivos que sustentam este rol de insaciáveis papões do que faz falta ao cidadão comum, sobre o qual recai a triste sina de passar mal, mas que tem de pagar para que os recalcitrantes passem muito bem. 

É muito desconfortável estar nesta posição, ou neste lugar. Quem se habituou ao primeiro lugar, sente-se desconfortável no segundo. Quem se habituou a dar dois berros e ver que todos se põem em sentido, sente-se desconfortável quando lhe chegam dois sussurros aos ouvidos.

Temos cá disso sim senhor. Temos cá quem inverta as regras do jogo para se manter lá em cima. Infinita e confortavelmente. Sem respeitar as regras do jogo. Mas também temos quem contribua para que tal aconteça. Muita gente, que só quer resultados. Mesmo que sejam falseados.

Por causa disso, e não só, temos cá muita gente a sufocar, sentindo ao mesmo tempo que isto é um ar que lhe dá, comparado com as ventanias que lhe passam ao lado, para o lado do conforto e do bem-estar, para a satisfação dos caprichos e das grandezas onde se não pode cortar nada.

Também eu, como muita gente, me sinto desconfortável neste lugar onde a mentira faz lei, onde a verdade deixou de ser o que era, onde tudo se vai tornando cada vez mais desconfortável. Jardim confortável, já não existe. Os bancos magoam. As flores já nem sequer cheiram bem.

Os que estão em segundo não se conformam. Não aceitam. Não admitem. Estão desconfortáveis. Porque o conforto tem de ser apenas deles. Para os outros, não pode restar mais que o sonho de ser primeiro. Porque a bola que era quadrada não pode voltar a ser redonda.

Este país está cada vez mais desconfortável. É cada vez mais provável virmos a ter como casa, o desconfortável banco do jardim.