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afonsonunes

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15 Jan, 2012

Novas de S. Bento

Os mais extremados vigilantes de S. Bento tiveram ontem um dia de pesadelo semelhante àquele que se sente quando a terra se agita debaixo dos nossos pés, como se ameaçasse engolir-nos de um momento para o outro. Mas, felizmente, parece que não foi nada.

Não foi, mas podia ter sido, porque alguém vindo de Paris, não se sabe a que propósito e, não sei se antes ou depois de almoço, passou perto de S. Bento. Ora, isso foi quanto bastou para que os vigilantes redobrassem de actividade, sobretudo na linguagem que habitualmente lhe dedicam.

Pensei eu que talvez temessem alguma nova oportunidade dada a tão indesejado visitante, o qual bem podia deixar-se ficar por lá, evitando vir a incomodar os sempre intranquilos vigilantes, receosos de que ele desse o golpe de misericórdia ao pouco que resta do que cá deixou.

Além disso, sabendo-se que em S. Bento funciona o único centro de novas oportunidades, dos muitos que o visitante criou, era natural que os vigilantes redobrassem de atenção. Realmente, com toda a razão, os alarmes soaram em todo o país e até se alvitraram meios de o reter.

O visitante almoçou com amigos que não devia ter, comeu o que muitos vigilantes gostariam que tivesse alguns pozinhos milagrosos, poluiu a capital com o seu ar de parisiense, talvez herdeiro da vida e dos tugúrios de Quasimodo, o Corcunda de Notre Dame.    

De qualquer modo, um perigo para a tranquilidade do centro de S. Bento, onde as novas oportunidades são exclusivamente destinadas aos residentes actuais e seus activos colaboradores, pois ninguém mais pode ter acesso às novas técnicas governativas ali desenvolvidas.

Sabendo-se como o visitante constitui um perigo para a humanidade em geral, para o país em particular, e para as novas oportunidades, um extermínio inexorável, considerou-se, e muito bem, que Lisboa e o seu coração, S. Bento, podiam sofrer um abalo do mais elevado nível.

Contudo, havia ainda um outro grupo em pânico, na verdade mais restrito, mas, mesmo assim, suficientemente influente para salvaguardar os perigos que lhes minavam o pensamento. Era inevitável que o visitante, um perigoso emigrante clandestino, não se aproximasse de S. Bento.

Pensava este grupo que o parisiense à solta por Lisboa, com o palácio no pensamento, podia vir a ser convidado por algum visionário tresmalhado, a tomar a seu cargo a monitorização do Centro de Novas Oportunidades de S. Bento, entregando-lhe a formação dos seus alunos.

Esse receio tinha os seus fundamentos. São conhecidas vozes que detestam as novas oportunidades, porque dizem ser um meio de promover ignorantes, além de se gastarem balúrdios com a sua manutenção. Daí que a coisa esteja quase reduzida a S. Bento.

Porém, o visitante tem uma grande experiência em todas as matérias ali leccionadas, motivo porque alguém possa ser tentado a induzi-lo, a tomar conta dessa formação. No momento actual que o país atravessa, todos os contributos são, não só bem-vindos, como obrigatórios.

São estas as novas que, desde ontem, circulam por perto de S. Bento. Mas, em boa verdade, dada a importância do tema, não se fala noutra coisa no país inteiro. Coisa que eu não podia ignorar.