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afonsonunes

afonsonunes

17 Jan, 2012

Vamos lá acordar

 

À primeira vista pode parecer que para acordar é preciso estar a dormir. No entanto, segundo notícias que li depois de já ter acordado, às três da matina houve uma data de noctívagos que, mesmo cheiinhos de sono, mas ainda acordados, lá conseguiram fazer um acordo.

Ora, se eles conseguiram fazer um acordo, obviamente que acordaram. Alguns deles, presumo eu, deviam estar mesmo exaustos, a ponto de não serem capazes de evitar umas valentes cabeçadas na mesa, tão sonoras que mantinham os outros noctívagos bem acordados.

Evidentemente que é possível acordar uma data de coisas naquele estado de sonolência em que muita gente costuma cair, precisamente naquele período a que também chamam ‘entre as duas e as três’, isto é, quando a cabeça oscila e os olhos viram e reviram entre as pálpebras.

Certo é que houve um acordar suficiente para dizer ‘ah que sim’ e, se alguém estava ali a dormir, agora que se aguente o suficiente para, com toda a lucidez, com os olhos bem abertos, conseguir assinar os papeis, como é da praxe, sem vacilar e sem assustar os restantes assinantes.

Deste acto de acordar, resultou um acordo. Precisamente, às três da madrugada, hora a que o rouxinol costuma começar a cantar. Só que o rouxinol canta noutra época do ano, se calhar por causa das constipações, que estes madrugadores não temem, porque tomam pastilhas de mentol.

Enquanto eles, os madrugadores, iam acordando, os sonhadores que deles dependem, em casa ressonavam a sono solto e, nem de longe nem de perto, imaginavam que lhes estavam a tratar da saúde. Quando o despertador os acordou e o rádio falou, toda a sonolência abalou.

Como sempre, há os que cantam e os que choram. Tal como os que tiram do pote e os que têm de encher o pote. Mas, o pote, agora, não é para aqui chamado, porque isso não interessa nada. O que interessa, e muito, é que no meio disto tudo, os que andam a dormir, não deviam acordar.

Nada de confusões. Não deviam acordar, ou seja, não deviam fazer acordos. Só porque não deviam andar a dormir. Principalmente, durante a noite, fora de horas, quando quem representam se encontra nos braços de Morfeu, sonhando com tudo de bom.     

Tudo de bom para os que têm motivos para cantar. Tudo se encaminha para que na próxima ronda, a maratona negocial seja ainda mais emocionante. Não me admiraria nada que o trabalho fosse elevado à categoria de lazer para toda a gente.

Lazer para os que estão habituados a rir e para os que sempre choraram. Ora, se para o lazer se paga, lógico será que, para trabalhar, se passe a pagar, em lugar de receber. Se nas férias se faz lazer, e se o trabalho passar a lazer, adeus férias definitivamente.

Mas, tudo isso será insuficiente se, com aquele sentido de rigor e obediência ao mais puro patriotismo, se continuar a fugir aos impostos. Ninguém, mas mesmo ninguém, está dispensado de pagar, consoante o lazer de que usufruir. Portanto, pagar para trabalhar e pagar impostos.

E que ninguém venha com a velha treta de como é que se pode. Isso era dantes. Não se podia. Mas agora pode. Já é tempo de mudar de vida. Portanto, bem-dispostos, vamos lá acordar.