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afonsonunes

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21 Out, 2008

O meu motorista

O facto de ser meu motorista não quer dizer que seja muito diferente dos outros, mas a verdade é que, um pouco à semelhança do que dizem uns filósofos mais modestos, ele tem ‘coisas ò abaixo’ e nem sempre emprega o travão em conformidade com o declive. Felizmente que ele não costuma enganar-se com as mudanças, revelando um cuidado muito especial para evitar a confusão entre a marcha atrás e a quinta, sem passar pelo ponto morto. Da segunda à quarta, velocidade, claro, o meu motorista, engrena na perfeição porque, diz a isso, que não está para comissionar brigadeiros, nem ser um dos heróis que mais contribui para a redução do défice dos stops.

O meu motorista não conduz um carro qualquer. Conduz o meu carro, um topo de vulgaridade, de uma gama média mas, que ninguém pense que foi gamado. Nem sequer proveio de um qualquer leilão de ocasião de apreendidos a motoristas muito mais audazes que o meu. E muito mais disponíveis para se candidatarem a um lugar no xadrez ou, em troca, a conseguirem um emprego a prazo certo, nos cívicos da moda.
O meu motorista tem carta de condução actual e já tive oportunidade de olhar bem para a fotografia dele, para comprovar que não é falsa. A gente ouve falar em tanta coisa falsa, que já não confia em nada, nem em ninguém. Mas não são só os patrões a desconfiar dos motoristas. O contrário também acontece com alguma frequência. O meu motorista nunca me pediu o bilhete de identidade mas, se pedisse, eu mostrava-lho com a melhor das simpatias, pois isso só demonstrava que ele não é um trouxa qualquer que não toma as devidas precauções relativas à sua profissão.
Pode entrar em excesso de velocidade uma vez por outra, com minha autorização. Pode até fazer a sua aselhice que eu, reprovando, compreendo, pois até o oiço desabafar com os seus botões, chamando a si próprio aquilo que eu lhe devia chamar a ele. Já o ouvi falar em burro e estúpido, mas eu nem ligo. Sei que o burro, é burro e está tudo dito. É claro que eu nunca toleraria que outro motorista dissesse coisas dessas ao meu motorista. Nem que eu tivesse de fechar de imediato todos os vidros do carro para não ouvir tais barbaridades. O meu motorista e o meu carro são o meu mundo.
É por isso que, ao contrário de muita gente, sou eu que conduzo os destinos da minha vida e não qualquer Chico Esperto que se arroga na cretinice de me querer conduzir ao sabor de uma qualquer ilusão que lhe tolda a mente. Também eu tenho as minhas ilusões e as minhas aselhices na condução da minha vida, como toda a gente. Mas, uma coisa é o nosso próprio despiste, outra coisa, bem diferente, são os acidentes de motoristas irresponsáveis que nos conduzem a desastres irreparáveis. E há tantos.
É por isso que o meu motorista, sou eu.