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afonsonunes

afonsonunes

21 Jan, 2012

Coitadinho de mim

 

Se toda a gente fosse como eu, nenhum cidadão do mundo teria falta de pão à sua mesa, porque eu e a minha Zéfinha não estragamos nada, mas absolutamente nada, do pouco que nos cabe da distribuição mensal dos proventos que vêm dos impostos dos contribuintes.

Eu e a minha Zéfinha comemos umas sopinhas de leite ao pequeno-almoço, porque os cereais do pacote de que ela tanto gosta, custam um dinheirão. Eu também gostava de comer um bocadinho de pão com chouriço, mas guardo isso para o almoço, para não passar fome.

Devo esclarecer que as sopas nem sempre são feitas com leite. É tudo uma questão de preço do respectivo pacote. Quando há promoção de, leve dois pague um, tudo bem. Há leitinho. Senão, as sopinhas levam água da torneira com um pacotinho de açúcar, e está feita.

A minha Zéfinha está um pouco mais magrinha que eu. Ando cá desconfiado que é por causa da tripa. A minha é um pouco preguiçosa e tenho sempre a sensação de que ando inchado. Isso dá aos outros a ideia de que estou gordo. Ela não. É um vê se te avias.

No entanto somos um casal muito feliz. Sobretudo porque gostamos de ver quem ganha mais que nós, ainda mais felizes que nós dois. Porque temos a noção de que esses também trabalham mais que nós. Até porque eu e a minha Zéfinha pouco fazemos.

É verdade que se fizéssemos alguma coisa de jeito, tínhamos de comer muito mais para nos aguentarmos. Por exemplo, a minha Zéfinha tinha de comer pão com chouriço, como eu, ao almoço. Assim, coitada, lá se vai alimentando com uma côdea com azeitonas.  

Sim, porque o miolo fica para mim, que já tenho a dentuça um tanto gasta e dinheiro para outra, nem vê-lo. Nós não temos enfermeira de família, nem conta no banco, nem cartão de crédito para dar uma balda. Portanto, nem pensar em gastar o que não temos.   

Podemos dizer que a nossa felicidade depende muito do pacote. Vamos ao Pingo Meio Doce e percorremos as prateleiras todas. Só compramos os pacotes que estejam a metade do preço. Normalmente, são aqueles que os holandeses não querem. Mas a nós dão um jeitão.

Se todos os portugueses fizessem o que eu já disse muitas vezes, a última foi ontem, não estava cá a troika hoje, nem nunca cá teria estado. Tudo porque eu e a minha Zéfinha, há muitos anos, todos os meses púnhamos alguma coisa de lado.

Sabe-se lá com que sacrifício, nós dois, chegámos a pôr de lado as nossas misérias, virando as costas um ao outro, para não desperdiçarmos aquele resto de energia que constituía a nossa sobrevivência. Nunca desperdiçámos nada, porque sabemos que no poupar é que está o ganho.

Há por aí quem diga que eu e a minha Zéfinha podíamos dar o exemplo de como gastar muito e bem, em lugar de andarmos por aí a fazer propaganda aos bancos, dizendo que convém sermos poupadinhos. Pois podíamos, se os outros poupassem mais, para nós dois termos mais.

No entanto, se for preciso, eu e a minha Zéfinha, cá estamos para as curvas. Contem connosco, embora eu já não possa contar convosco.