Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

23 Jan, 2012

Maldição

 

Começaria por dizer que isto, que é a vida do pagode nacional, não está tão mau como o pintam aqueles que desde há muitos anos se dedicam ao jogo de pôr o país em alvoroço, a ponto de produzir resultados nem sempre proveitosos para os próprios pintores.

Em cerca de uma dúzia de anos a nossa democracia sofreu uma data de tremores de que estamos a pagar juros altíssimos, mais em termos morais que em ter-mos de abrir os bolsos e deixá-los esvaziar sem possibilidade de qualquer resistência.

Parece uma espécie de maldição que bem podia ter-nos levado à bruxa, iniciativa que, provavelmente, por vergonha, ninguém se atreveu a tomar. É meu convencimento que era melhor perder a vergonha, que continuar nesta interminável pouca vergonha.

Vamos imaginar que Guterres tinha mesmo consultado a dita. Talvez ela lhe confidenciasse que, em lugar de deixar o pântano a crescer, devia arrepiar caminho, arregaçando as calças e as mangas, dizendo claramente a origem desse infortúnio aquífero que deu início à maldição.

Era quase certo que o conhecimento dos monstros e fantasmas que já então existiam, permitiria um combate de fileiras cerradas de forma que nunca a democracia que tantos invocam, começasse, ela própria a tremer, mal supondo as bruxarias e suas maldições que então ninguém previra.

Foi assim que surgiu Barroso, o tão badalado cherne, então suposto salvador da pátria ameaçada e pantanosa. Também ele podia ter ido à bruxa, em busca da verdade da maldição do passado. Deve ter tido vergonha e ele, corado como uma laranja, foi-se bem caladinho.

Alguém se lembrou de Santana, o bom Pedro primeiro, que aceitou o sacrifício de correr com a maldição, cheio de confiança nos seus poderes de resistência, em contraste com os fugitivos anteriores. Acreditou que não havia bruxas e ignorou-as.

Não tardou porém que todos os fantasmas e monstros se unissem contra ele e foi o que se viu. Nada nem ninguém ficou do seu lado, quando raios e coriscos o cercaram sem apelo nem agravo. Foi mais um que não quis falar do pântano, acabando por ser engolido por ele.

Teve o azar de não ter aparecido uma bruxinha boa que o levasse, como aconteceu com o seu antecessor. Não teve outro remédio senão andar por aí à espera que lhe saísse a taluda. Claro que essa só sai a quem joga e, sem dúvida, ele sempre foi um bom jogador.

Bom, como é super sabido, sucedeu-lhe o José segundo que, por acaso, também não foi à bruxa e tudo o que estava para trás continuou no segredo. Também ele entrou no pântano, viveu no pântano e saiu dele empurrado por quem o lá metera.

Assim se chegou ao Pedro segundo, também conhecido por Passos ou Coelho. Não foi à bruxa, mas vieram os bruxos ao seu encontro. Mostraram-lhe, finalmente, todos os monstros e todos os fantasmas. Agora, desesperadamente, luta contra eles. Bem? Mal?

A maldição manifesta-se mais uma vez. Além dos monstros do passado, aparece agora a maldição inesperada de um pai dos ditos. Volta a haver a sensação de que é imperioso ir à bruxa quanto antes. Antes que mais alguém corra o risco de cair.