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afonsonunes

afonsonunes

28 Jan, 2012

Lambões

 

Já lá vai muito tempo sem que tenha ouvido este termo esquisito, que considero uma alarvidade, mas que assenta que nem um gorro, na cabeça de gente que tem um estômago insaciável ou, em sentido mais actual, uma carteira sem fundo, ou um saco que nunca enche.

Não porque entre nele uma pequena quantidade de vil metal, relativamente à sua dimensão, mas porque, por mais milhões que lhe metam no interior, nunca conseguirão enchê-lo. Do mesmo modo que nunca ficará satisfeita a vontade de nele meter cada vez dinheiro.

Assim, os muitos alambazados que o país alberga, por mais que lhes paguem, ou roubem, nunca estão satisfeitos. Querem sempre mais, cada vez mais, ainda que vejam à sua volta cada vez mais miséria, cada vez mais situações de gente que não consegue sobreviver sem ajudas.

E essas ajudas, em muitos casos, vêm exactamente de gente que pouco mais tem que aquilo que lhe permite aguentar-se dividindo, mesmo assim, esse pouco, com os que não têm mesmo nada. É nesta gente que se sente o peso da palavra solidariedade.

E, ali ao lado, os lambões passam e viram a cara para o lado, porque não querem ver aquilo que devia provocar-lhes uma enorme dor na consciência, que é o contraste da sua vida de excessos, com a total carência nas mais elementares condições de outras vidas. 

Pior que a consciência destes lambões, é a consciência de quem podia e devia pôr cobro a tais disparidades, dando seguimento a todas as palavras ocas que todos os dias proferem, pretendendo, vergonhosamente, lançar poeira para os olhos de quem julgam impedir de ver.

É frequente ouvi-los dizer: os portugueses sabem… É verdade. Todos os portugueses sabem, embora nem todos saibam, ou queiram, ver as coisas da mesma maneira. Mas, todos os portugueses sabem, ou vêem muita coisa que os lambões e seus protectores pretendem ocultar.

Toda a gente conhece e vê os grandes lambões. Uns, olham para eles e detestam a sua insensibilidade. Outros, piedosamente, lamentam que haja gente assim. Outros ainda, vêem neles os seus ídolos, os únicos que lhes garantirão um lugar próximo da sua mesa.

Todos sabemos como este mundo é uma bola mágica onde cada um vê o que sabe. O problema é que a bola não dá a todos a mesma visão. Cada um julga sempre que vê melhor que qualquer outro. E, se puder, cada um tentará convencer o outro de que só ele vê a verdade.    

Mas, na verdade, lambão que protege lambões, metendo-lhes mais dinheiro nos sacos cheios, acaba por ser um dos aprendizes de lambões de hoje, convictos de que serão eles os lambões de amanhã, quando chegarem à situação daqueles a quem hoje protegem despudoradamente.

É chocante verificar como no extremo oposto a estes alambazados, tudo falta, em contraste com o que tudo sobra e se desperdiça ingloriamente, sem um assomo de compreensão para com o desmoronar de tantas vidas de pessoas indefesas e de tantas injustiças que não comovem ninguém.

Por causa de tantos lambões, o mundo vai rebolando as suas convulsões, cada vez mais violentas e imprevisíveis. Por cá, costumamos ser muito calmos, muito serenos, de brandos costumes. Mas já fomos mais. Portanto, convém ter algum cuidado.