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afonsonunes

afonsonunes

29 Jan, 2012

Tralha

 

Cada vez vou ficando mais convencido de que nunca, jamais, em tempo algum, vi tanta tralha à minha volta, como agora. E, bem vistas as coisas, a tralha também se mexe por baixo e por cima de mim, sem que eu consiga libertar-me dela ou fazer com que ela não me sufoque.

Estou mesmo muito preocupado com a possibilidade de essa tralha se vir a transformar em metralha, dados os sinais que a todo o momento se perfilam perante os meus olhos. Já tenho alguma dificuldade em distinguir sinais, da verdadeira tralha riscando os ares que eu tenho de respirar.

Esta ameaça de tralha, ou melhor, a existência de uma outra tralha denunciada há uns tempos atrás, deixou-me na dúvida, visto que não a sentia directamente, embora o volume do clamor à sua volta, me não permitisse negá-la em absoluto.

Entretanto, tudo pareceu voltar ao estado normal da minha vidinha calma e serena, esquecendo as coisas tristes que já lá vão. O pior foi o aparecimento de novas coisas tristíssimas que começaram a chegar, trazidas por uma autêntica metralha cerrada de mentiras.

É verdade. Se a tralha antiga se foi, aí temos a maior metralha de todos os tempos da minha vida. Isto agora já não é só a tralha que uns senhores nos trouxeram em mão. Em muitos aspectos, tenho de reconhecer que foi uma tralha útil e necessária para limpar este ambiente de cortar à faca.

Mas quem diria que, com ela, se misturou uma tralha de gente que começou a ver coisas com que sempre sonhou em criança e, vai daí, toca de começar a espingardear em todas as direcções, tralha que não abre sequer os olhos para ver para onde faz pontaria.    

Neste campo de batalha virtual, começam a surgir os primeiros sinais de que a artilharia pesada se prepara para entrar em acção, utilizando tácticas e programas já ensaiados quando a guerra se desenrolava com os beligerantes instalados em barricadas contrárias às de hoje.

Da batalha barulhenta passou-se para a guerra do silêncio, para que se não vejam as barracas que andam por ali. O combate em silêncio repõe a teoria da claustrofobia, só que esta agora parece ser anti-democrática, muito mais eficaz que a outra, que se dizia democrática.

Sobre a tão badalada batalha contra a pobreza, esta tralha desatou a hipocrisia e iniciou a guerra a favor da riqueza imoral e, por vezes, criminosa. Que vai colocando estrategicamente, paulatinamente, em lugares de onde vai tirando gente séria, por pura sede de vingança.

Tralha esta que apregoa ser competência em todas as suas divagações substitutivas, onde se nota a olho nu, uma senilidade indisfarçável ou uma juvenil inexperiência evidente. Senilidade que sempre tem andado ligada a todo este rol de barracas e de guerras do poder pelo poder.

Tudo até teria um ar de tralha normal, se não tivesse sido anunciado o seu enterro definitivo. Afinal, a tralha ressuscitou antes ainda de ter sido enterrada. Assim, nem sequer podemos rezar pela sua alma.