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afonsonunes

afonsonunes

01 Fev, 2012

Língua de palmo

 Nestes tristes tempos que decorrem até a oposição faz questão de andar mais triste que o governo. E não sei mesmo qual das partes anda a fazer a maior triste figura. Para não generalizar muito quanto à oposição, vou cingir-me apenas ao maior partido.

O PS está órfão, como já vi escrito algures, suspirando por José Sócrates. Não tenho a certeza de que seja assim, mas que o partido não sai da modorra em que caiu depois da saída do ex secretário-geral, disso não parece restarem dúvidas. 

A causa dessa modorra não pode deixar de ser justificada pela relutância de Seguro em assumir uma posição clara, a partir do momento em que assumiu funções, quanto à defesa ou condenação da anterior gerência do partido mas, principalmente, do país.

A actuação de Seguro, depois de substituir o seu antecessor, pautou-se exactamente pelos mesmos princípios que adoptara antes de ter qualquer espécie de responsabilidades partidárias: sempre neutro, sempre à espera do que desse e viesse, não arriscando absolutamente nada.

Isto para além da velha táctica do trabalho de sapa, como o fez Sócrates, como o fez Passos, nos respectivos locais de onde sairiam os votos: as concelhias de todo o país. De resto, Seguro, nunca esteve ao lado de Sócrates, como nunca esteve contra ele.

Neste momento, quando invariavelmente o actual governo e o PSD, recorrem à desculpa dos erros anteriores, Seguro não responde, deixando que o partido, nem sempre com verdade, seja acusado de muita coisa em que foi ajudado, obrigado até, a fazer o que não queria.

Não faltariam exemplos a Seguro e ao PS para se defenderem, tal como Sócrates, não foi o único culpado da situação do país, como pretendem alguns sectores da direita mais radical. A culpa, quando se pretender falar de culpa, devia ser muito bem distribuída por todos os que tiveram.

Porém, nunca se viu Seguro nem o PS, depois das últimas eleições, defenderem ou atacarem o governo anterior no que ele fez de bom ou de mau. Parece que essa seria a única maneira de repor verdades que continuam muito escondidas, mesmo nas altas esferas.

Os dirigentes do PS parece terem sido picados pela mosca do sono, não reagindo a factos bem visíveis e bem conhecidos, refugiando-se naqueles lugares comuns, que já ouvimos sempre que a vida piora, como a estafada conversa da falta de emprego ou as pessoas, primeiro. 

A estratégia que ninguém assume quando perde eleições é, em primeiro lugar, assumir claramente onde é que errou e porque errou. Em segundo lugar, denunciar os falsos detentores da verdade e colocá-los no lugar que lhes pertence no quadro de responsabilidades.

Não ajuda ninguém continuarmos a ouvir diariamente aquela lengalenga dos gastos de dinheiro que não havia, sem se falar claramente do roubo do dinheiro que havia, ou de quem passava a vida a reclamar que se gastasse mais dinheiro do que havia. 

Isto seria muito difícil? Parece que não. É preciso que o país conheça os seus amigos e os seus inimigos, para se encontrar definitivamente no caminho da seriedade e da confiança em si próprio. Enquanto andar por aí um jogo hipócrita do gato e do rato, nada feito.

Nós, os que não temos, nem tivemos nada a ver com esta pouca vergonha reinante, é que estamos a pagar tudo com língua de palmo.