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afonsonunes

afonsonunes

04 Fev, 2012

Os novos-ricos

Os portugueses são todos pobres, mas alguns ainda não perceberam. Sou eu que o digo e não tenho medo que me venham dizer o contrário. Aqueles que ainda não perceberam, vão perceber, à medida que o tempo for passando, mesmo que tenham muito dinheiro.

Porque, ser pobre de dinheiro é uma coisa, ser pobre de espírito ou de mentalidade, já para não falar da pobreza de ideias quanto a solidariedade e equidade, é outra coisa bem diferente. Sou eu que o digo e não me sai da cabeça esta ideia de que todos os dias estão a aparecer novos-ricos.   

Neste país de pobres começam, finalmente, a surgir os primeiros sortudos que conseguem dar aquele passo que só está ao alcance de verdadeiros sobre dotados em verticalidade, desde que, sem sombra de dúvida, sejam possuidores de montes de competência.

É assim que começamos a ver o aparecimento de ricos saídos da mais indecente pobreza, mesmo acima de todos os pobres que somos todos nós, todos os que trabalham por não saberem fazer mais nada, mas também todos aqueles que ganham mais que nós por nunca trabalharem.

Naturalmente que é preciso ter-se muita sorte para, de entre os dez milhões de portugueses pobres, ser um dos miseráveis que ascenderam à nova riqueza, ganhando o privilégio de trocar o banquinho de madeira onde se sentavam em casa, por uma cadeira toda dourada.

É evidente que a cadeira desses novos-ricos não é compatível com a casa do banco de madeira logo, também ganharam uma nova casa, onde têm tudo, menos cama e roupa lavada, embora tal não aconteça porque eles ainda não se lembraram de pôr isso no papel que assinaram.

Quando se lembrarem dessa ou de qualquer outra necessidade, não vão precisar de fazer qualquer exigência ao patronato, nem tão pouco ameaçar com alguma greve inoportuna. Sabendo o que lhes custou a vida de pobres, nunca perderiam uma hora sequer de corte no salário.    

Nós, os portugueses pobres e comuns, existimos exclusivamente para lhes dourar as cadeiras e para garantir que nada lhes falte durante as vinte e quatro horas do seu êxtase laboral, em grande parte ocupado a contar os muitos maços de notas que diariamente lhes colocam na mesa.

Ao contrário, temos nos mais altos representantes do país, pessoas simples e pobres, que nos embalam suavemente com os seus exemplos de probidade e de poupança que muito nos sensibiliza. Dizem-nos, e bem, que temos de ser poupadinhos para superar esta chata emergência.

Sem dúvida, é isso que todos nós, pobres insolventes, lhes vemos e aplaudimos no dia-a-dia. E é isso que nos motiva até ao limite das nossas capacidades, pois o que mais nos custa não é a nossa austeridade, mas sim os sacrifícios inaceitáveis que vemos acima de nós.

Também ao contrário do que se pensa, nós pobres portugueses, não temos qualquer relutância em compreender e aceitar estes novos-ricos que surgem ao ritmo de dezenas por dia. São os tais das cadeiras douradas, por enquanto, sem cama nem roupa lavada.

Também por enquanto, eles gostam mais de lavar roupa suja e de dormir com pesos na consciência. Para nós, pobres de consciência limpa, até é bom que eles existam. São menos lugares que ficam disponíveis no inferno. E nós vamos respirando de alívio.