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afonsonunes

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11 Fev, 2012

Invejosos

Está visto que não se pode estar bem na vida, que não venham logo uns atrasos da dita a querer ser como nós, tentando copiar tudo o que dizemos e fazemos, convencidos de que não tarda, estão ao nosso nível. E, se não conseguirem, logo virão dizer que somos isto e mais aquilo, ou seja, o que eles dizem que não são.

Nós, portugueses, estamos bem, graças aos deuses. Deuses que os outros não têm e por isso estão cheios de inveja de nós. Porque nós somos capazes de fazer o que eles não conseguem fazer, por muito que se estiquem, ou por muito que se encolham. Alguns deles até se espalham ao comprido e, nada.

A inveja é uma coisa terrível. Imagine-se que eles têm inveja daquilo que nós trabalhamos e daquilo que nós ganhamos a trabalhar. Porque eles dizem que trabalham muito, mas ganham muito pouco. E a gente bem vê como eles vivem mal, se vestem mal e de divertimentos, nem nada que se pareça connosco.

Nós temos fama de trabalhar pouco mas ganhamos de mais. Ora isto lá fora provoca uma inveja danada. Assim como o facto de sermos tão inteligentes, que nem precisamos de explicador para seguir à risca, como excelentes alunos, tudo aquilo que nos digam nas aulas, por mais complicado que isso seja.

Não admira pois que os maus alunos do exterior tenham inveja de nós. Eles não percebem nada do que os professores lhes dizem, chumbam naturalmente nos exames, até porque nem copiar sabem. Sim, bastava-lhes uma simples olhada para as orações rezadas pelos nossos deuses, para se safarem como nós.

A agravar a situação está o facto de os de fora ganharem tão pouco que já nem dá para lhes cortarem umas gorduras dos ordenados e dos subsídios. Assim, ficam pesados e molengões, incapazes de dar o litro como nós, que estamos estimulados pelos músculos limpos dos nossos corpos, mal alimentados mas bem treinados para suportar tudo.

De entre as muitas coisas que os da estranja não toleram, vamos encontrar os rendimentos dos políticos e dos cidadãos. Por cá, nesta quinta bem gerida por deuses mal pagos, todos os políticos têm ordenados muito próximos do rendimento social de inserção, isto é, ganham muito mal.

Ao contrário, os cidadãos de cá, ganham muito bem, tão bem que é consensual que se deixem de pieguices de meninos ricos. Se acham que passam fome, podem entreter-se a morder a língua, em lugar de passarem o tempo a mascar a indispensável pastilha elástica que, além de cara, estimula o vício de comer.

Ora, lá fora, os políticos invejosos ganham muito bem, enquanto os cidadãos invejosos ganham muito mal. Parece estranho que tenham inveja de nós. A verdade é que isso vem demonstrar que nós não podemos passar sem políticos mal pagos, enquanto eles não podem passar sem cidadãos mal pagos.

Agora, inveja, inveja, a maior de todas as invejas, reside no facto de nós, os portugueses, estarmos duzentos por cento confiantes de que nos vamos safar, enquanto eles, os estrangeiros, estão permanentemente a dizer que quem não se safa são eles. Neste momento, isto é crucial. É aquilo que eles não nos perdoam.

Eles bem gostariam que fosse ao contrário. Mas ainda não perceberam que é tudo uma questão de fé nos deuses de cada um. Portanto, custe o que custar, só têm que mudar de orações aos seus deuses e fazer como nós. Rezar mais para ter mais fé, lendo em voz alta a cartilha do passado para conquistar o futuro.  

E, sobretudo, não pensar que o céu está mais próximo de nós do que deles. Porque o futuro aos deuses pertence e nunca aos invejosos que, em lugar de nos quererem tirar os nossos méritos, deviam antes seguir os nossos passos. Passos que detestam invejosos que querem é vê-los a marcar passo para eles avançarem.

Esperemos que a inveja deles não consiga trocar as nossas vantagens pelas desvantagens deles. Esperemos, pois, que os invejosos não nos roubem o nosso bem-estar. Bem-estar que tantas orações custaram aos nossos deuses, agora com a paz de espírito da inveja de quem diz que disse o que não disse.