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afonsonunes

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14 Fev, 2012

Gente esperta

Tenho cá uns ligeiros palpites que me levam a pensar que toda a gente tem uma espécie de tendência para a esperteza. Longe de mim a ideia de que isso é qualquer coisa de mau. Como é evidente, a finalidade da esperteza de cada um é que lhe dá classificação.

O mesmo é dizer que às pessoas espertas, tanto lhes pode dar a esperteza para o mal como para o bem, embora possa admitir que haverá quem vá alternando uma coisa com a outra. Tudo depende das oportunidades e, muitas vezes, das necessidades e dos interesses.

Mas, em geral, gente esperta é aquela que tem os olhos bem abertos, que sabe aproveitar oportunidades em momentos decisivos, que joga com os riscos que bem conhece, que explora os receios e as hesitações provocadas pela boa-fé ou a ignorância dos outros.

Neste jogo do cada um bota palavra onde quer e como lhe apetece, releva à evidência que cada esperto puxa a brasa à sua sardinha. Cada um fala daqueles que detesta como meio de se satisfazer com as suas preferências ou de tentar minimizar, ridicularizar até, as preferências dos outros.

Cada esperto, quando não tem muitos motivos para falar daqueles que admira, recusa pronunciar-se sobre eles e sobre os seus pontos fracos, quantas vezes bem mais fracos que os daqueles que detesta com tanta veemência, chegando ao exagero de perder a razão.

A dicotomia esquerda/direita é o sinal mais evidente de como os exageros se jogam na política. É ver como os opinantes de esquerda se atiram aos de direita, rebuscando casos do mais detestável que julgam conhecer, ou que lhe chegam pela comunicação social.

De igual modo os opinantes de direita não deixam os seus créditos por mãos alheias. Tudo o que sirva para enxovalhar quem é de esquerda, até pelo simples motivo de o ser, sai em catadupas de adjetivos rebuscados, por vezes na mais detestável das linguagens.

De um modo geral, andam nas bocas dos beligerantes verbais de ambos os lados, figuras públicas mais ou menos proeminentes, acusadas de causadoras de todos os descalabros do país. É verdade que temos bons exemplares a contas com a justiça e outros à espera de chegar a sua vez.

Evidentemente que estes são alguns dos espertos na crista da onda do mar alteroso dos exageros mas, felizmente, na esquerda como na direita, a maior parte dos seus integrantes têm a digna esperteza de se respeitarem o suficiente para que possam conviver civilizadamente.

Esta esperteza, ou falta dela, por parte de certos arautos de um poder que não tolera contestação, nunca pode conduzir o país àquela santa união que lhes baila permanentemente no pensamento, tudo fazendo para convencer os outros de que não há alternativas às suas não raras idiotices.

Pensam os espertos mais convencidos que um dia vão conseguir eliminar todos os que não pensam como eles e ponto final. Para eles é simples, é lógico e é indiscutível. Pois que metam as duas mãos na consciência e meditem nas hipótese que têm de obter o que tanto desejam.

A verdade é que a minha esperteza também não dá para dizer coisas mais interessantes.