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afonsonunes

afonsonunes

28 Fev, 2012

Prioridades

Sinceramente, ando baralhado com o facto de não ser capaz de estabelecer prioridades para os
meus afazeres mais importantes. Que são muitos e difíceis, tanto que, cada vez
mais, sou vencido por uma espécie de preguiça mental que vem de algum vírus
desconhecido.

Não tenho dúvidas de que coisas dessas se apanham em qualquer lugar que a gente frequenta
e, então nisto de computadores, até parece que entramos num hospital cheio de
invisíveis perdigotos que nos entram pelas narinas dentro sem qualquer
cerimónia. 

 

Depois, se a gente não tem uma estrutura anti tudo, lá tem de ficar de quarentena, logo numa
altura em que ainda não tivemos tempo ou disposição, para tentar obter a
isenção das taxas moderadoras, porque a pagar, então ficamos com vírus e sem
cheta.

 

Mas a minha estrutura ainda vai aguentando, embora seja visível que já não tem a capacidade
de resposta de que muitas vezes abusava. Agora ainda vai, mas vai muito mais
devagarinho. E, como agora se diz, é tudo uma questão de prioridades.

 

Já aprendi que não vale a pena querer resolver um caso muito importante, mas que à partida
sei que o meu esforço resulta em zero, no que toca à sua solução. Então, é mais
eficaz pegar num caso que até um invisual agarraria com ambas as mãos sem
qualquer dificuldade.

 

Portanto, não adianta andar anos e anos a desperdiçar tempo, dinheiro e o precioso
esforço físico, anímico e mental, para dar satisfação a uma vontade férrea de
chegar aos calcanhares de alguém, sabendo que não se conseguirá dar mais que
umas ferroadas à distância.

 

Estou mesmo convencido de que há quem passe uma boa parte da sua vida, em busca de um ideal
que sabe que não existe, mas que não desiste de o manter, à custa de todas as
superficialidades, arriscando-se a morrer depois de esse vírus ter corroído
lentamente todo o seu corpo.

 

Por mim, não alinho nessa. Se eu fosse polícia e visse um ladrão a roubar um carro e, a
alguma distância dali, um indivíduo a fugir, não hesitaria um momento sequer em
tentar prender o ladrão. Porque este era mesmo ladrão, enquanto o outro seria
ou não.   

 

Sem dúvida que a minha prioridade ia todinha para as evidências, desprezando as
aparências, por mais que me gritassem que o fugitivo devia ter prioridade na
perseguição. Mas, era real a impossibilidade de poder mandar as pernas para um
lado e os braços para o outro.

 

É evidente que não sou polícia, mas se o fosse, arriscava-me a sofrer uma grande deceção.
Se levasse o ladrão a julgamento e ele alegasse que eu o tinha prendido,
deixando de perseguir um fugitivo, teria de explicar, talvez em vão, porque
optei por essa prioridade.

 

E, se viesse depois a constar que o fugitivo parecia ser o inimigo público número um, então
eu, polícia, estaria condenado irremediavelmente a passar o resto dos meus dias
na cadeia, porque teria cometido o crime de ter uma noção de prioridades,
diferente da do juiz.  

 

É caso para perguntar qual de nós, eu, polícia, ou o juiz que me condenou, teria apanhado
mais vírus na cabeça. E ainda, qual dos locais está mais contaminado, a rua, ou
o tribunal, onde as prioridades não se submetem aos anti vírus tradicionais.