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afonsonunes

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03 Mar, 2012

Caldo de vaca/galo

É uma espécie de canja mas não é canja. Porque a canja é feita de galinha e é considerada uma coisa boa. Como tal, uma raridade no meio de tantas coisas más que atualmente nos saem diariamente na rifa. Também há quem diga que é canja, se qualquer coisa for mesmo fácil de obter ou, por outras palavras, que são favas contadas.

 

O conjunto das carnes vaca/galo depois de submetidas à fervura da praxe, podem fornecer-nos aquele caldinho de carne vermelha/branca, cujas virtualidades gastronómicas serão preferidas por quem vê nesta dupla mamífero/ave, a originalidade, do poder de seis patas, contra apenas duas da canja de galinha.

 

Mas, vaca/galo não é apenas um caldo de mangação, pois a vida é muito mais que comida ou bebida, principalmente para quem ainda não tem problemas desses. Todos conhecemos perfeitamente as nossas vacas sagradas, agarradas como lapas aos seus lugares de exceção que, por serem sagradas, nem leite nos conseguem dar.

 

Por seu lado, os galos instalados em poleiros de vistas panorâmicas não se cansam de nos cantar a chamada canção do bandido, nunca como hoje tão incensados pela harmoniosa atuação dentro dessa fenomenal dupla vaca/galo, que também pode ser caracterizada pela associação de mérito e distinção, de cristas vermelhas com hastes retorcidas.

 

Certamente que ainda nenhum chefe de barrete branco e alto, de avental comprido, se lembrou de fazer um caldo exclusivamente com as cristas dos galos e os chifres das vacas. Não tenho dúvidas de que a criatividade ilimitada que muitos deles nos apresentam dia após dia, nos brindaria com uma iguaria de estalar a língua, dados os seus poderes à beira do misterioso.

 

E lá teríamos um produto, qual parceiro do pastel de Belém, que levaria Portugal às sete partidas do mundo. E levaria a nossa débil economia de meses atrás, a suplantar a dos vinte e seis da nossa área competitiva que, aliás, só pela suspeita de que isso vai acontecer, já está a fazer ultrapassagens surpreendentes aos nossos mais ativos competidores.     

 

Portanto, vaca/galo é que está a dar, como diria o talhante do meu bairro que, de indolente e falido profissional, se vai tornar num dinâmico fornecedor de muitas toneladas de carnes ao futuro exportador dos caldinhos que vão fazer furor por esse mundo fora, segundo os mais recentes estudos de mercados do exterior. E isto não é uma promessa. É uma garantia.

 

Certamente que isto não acontece por acaso. Isto acontece porque o país já deixou de comer vaca/galo, pois o preço subiu tanto no passado que, no presente, nem os cascos das vacas, nem as unhas dos galos estão ao nosso alcance. O que, felizmente, proporcionou às nossas vacas sagradas e aos nossos galos no poleiro, a descoberta dos caldinhos salvadores.   

 

Mas, sejamos justos, se não fossem as vacas sagradas e os galos dos poleiros anteriores, nada disto seria possível. Porquê? Porque foram eles que criaram as condições extremamente difíceis, com as privações que nos impuseram e as limitações a que nos submeteram, que tornaram possível que se chegasse a este vaca/galo sem precedentes na nossa indústria exportadora.

 

Nada mais lógico e justo que as vacas sagradas e os galos de poleiro de hoje façam, como o fazem diariamente, o elogio e o reconhecimento público que merecem os seus iluminados antecessores. Fica-lhes bem essa postura, a par com os nobres exemplos de solidariedade e espírito de sacrifício que fazem para nos mostrar nas suas vidas austeras.

 

Mostrando-nos como se podem suportar, custe o que custar, doa a quem doer, como lhes dói a eles próprios, todas as privações, incluindo a de prescindir de comer carnes de vaca/galo, para que o país se endireite com os caldinhos que farão as delícias dos cidadãos do mundo, para tornar ricos os pobres deste nosso mundo luso.

 

É evidente que não pode haver um único português que não aprecie este sacrifício e esta esperança que já é uma certeza. Mas, se por acaso houver alguém que não queira prescindir do seu lugar de conforto alimentar, olha… vaca/galo. Com o meu pedido de desculpas.