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afonsonunes

afonsonunes

07 Mar, 2012

Acabem com a velha

A velha fez hoje cinquenta e cinco anos. Se fosse uma pessoa dir-se-ia que era falta de educação chamar velha a quem tem idade de ainda estar ali para as curvas, precisamente, porque o grande problema são as curvas que deformam as mentalidades que a integram e os buracos que se escondem atrás de umas câmaras que só nos mostram montes de trabalhos.

Com cinquenta e cinco anos ainda há quem tenha umas curvas de se lhe tirar o chapéu e de não lhe tirar os olhos de cima. Esta velha está refém de muita gente que anda com os olhos em bico, por causa dos endireitas que dela tomaram conta, tratando-a como uma senil distribuidora da riqueza que vem dos bolsos de todos nós.

A velha de cinquenta e cinco anos dá pelo nome de RTP e, sinceramente, ainda não consegui descobrir o significado de tais letras, para mais apresentadas com maiúsculas o que, em princípio, representaria qualquer coisa de grande, ou de importante, ou das duas coisas juntas. Pois eu diria que a velha é uma casa bem pintada por fora, mas com interiores a fazer pena.

Aliás, o país gasta muito mais, em proporção, claro, com essa velha sem alma nem coração, do que gasta com a sua envelhecida e carenciada população, que aguenta os seus próprios males, precisamente, anestesiada pelas conversas que lhes metem diariamente nas suas casas, através de uns tantos grilos e de umas tantas grilas, que se limitam a grilar os recados que vêm de cima.

A verdade é que esses grilos e grilas não estão velhos, mas as suas conversas e os seus hábitos de sempre não evoluíram nada, antes mergulham diariamente nos mesmos gestos, nas mesmas banalidades, quando não nos mesmos jeitos de querer impingir gato por lebre. Isto para não falar naqueles que só nos impingem pele de coelho por lebre legítima.

Não admira pois que esta velha precoce consiga envelhecer uma população muito mais rapidamente que outras doenças consideradas normais para a idade avançada. Sim, porque a velha, já é uma doença em si própria, que fornece notícias em jeito de pisca-pisca, ao ritmo do brandir de uma caneta em jeito de espada, com a dramatização trepidante das desgraças que lhes dá.

No campo da cultura ensina as pessoas de idade a saber resistir à permanência diária durante todas as manhãs, numa praça fria com um par de jarras que têm a pretensão de espalhar alegria entrecortada com histórias de humor, mas onde abundam mãos que mais valia não saírem dos bolsos em toda a manhã e exemplificações que só baralham os que mais querem ver.

Aliás a velha gosta muito de ter consigo pares e mais pares, todos de pedra e cal, não dando qualquer hipótese aos que começam as suas carreiras, mesmo boas, de fazer umas remodelações, ainda que periódicas, para que os pagantes distraiam a vista e aliviem o cansaço de tanto ver todos os dias as mesmas coisas e as mesmas vulgaridades.

E aquilo a que chamam debates políticos… E aquilo a que chamam debates desportivos… E o maior debate da televisão portuguesa… E a informação de confiança… Tudo um ror de equívocos que só enganam a quem esteja anestesiado com a dose única e insubstituível de uma qualquer droga que não permite alternativa. E para a qual a velha não tem antídotos.

Mas ainda o pior de tudo é o custo de toda esta velharia que nós pagamos e temos de suportar. Que nós pagamos para nos aborrecer. Que nós pagamos para aturar muitos dos que levam milhões retirados de bolsos que já foram esvaziados há muito tempo. Mas onde as mãos deles continuam a remexer insaciavelmente. Apetece dizer, acabem com essa velha!...