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afonsonunes

afonsonunes

09 Mar, 2012

Agora sim

Parece que se zangaram as comadres e, finalmente, há uma pequena possibilidade de o zé-povinho, que mora no rés-do-chão, ter um bocadinho de conhecimento do que se passa no primeiro andar. Isto para não falar dos indiferentes que moram na cave, ou nos irrecuperáveis que habitam na subcave.

Andavam as comadres a conviver amigavelmente, embora essa amizade não fosse propriamente um modelo de sinceridade, quando a comadre da suíte lá de cima se lembrou de abrir a janela e gritar cá para baixo o estado de alma em que a sua nobre pobreza a deixou, depois de uma série de revezes sempre mal entendidos pelos baixios do prédio.

Ora foi precisamente esse, o grito de rebate saído da janela lá de cima, que levou as comadres cá de baixo, a assomar ao saguão das traseiras e inquirir da possibilidade de trocarem o seu faustoso pé-de-meia, pela miserável reforma de um desinfeliz pensionista que, com muito gosto, quer partilhar os seus sacrifícios com todos os vizinhos.        

Agora sim, tudo indica que vai haver uma justa repartição de argumentos em que todo o prédio vai partilhar a informação que tem andado oculta, porque ninguém tem estado disponível para abrir as hostilidades, receando entrar à procura de lã e sair tosquiado. Sabe-se como as guerras começam, é dos livros, mas nunca se sabe como acabam.

Por enquanto, o verniz estalou de cima, ao que tudo indica num ato corajoso de tentativa para salvar uma face coberta de indignação e dar a outra face para que os de baixo lhe provoquem um rubor que só pode acabar numa comichão tão incomodativa que, após a coçaria que se lhe segue, só pode dar em peles arranhadas.    

Porém, quem está do lado de fora do prédio em litígio, tem agora a possibilidade de ouvir o troar dos canhões dos principais beligerantes e observar em direto e ao vivo, quais as baixas que se vão verificando. Até porque nesta guerra há muito mais curiosidade em ver quedas de generais do que, como é tradicional, ver quantos soldados tombam de cada lado.

Aquilo que habitualmente acontecia numa guerra que todos os bem informados diriam tratar-se de Golias contra David, aos poucos, tem vindo a assistir-se ao anormal crescimento deste, enquanto o Golias tem vindo a tornar-se num quase pigmeu, vendo-se claramente decrescer o círculo de guerreiros que lhe davam a força moral de quem ganhava todas as batalhas.

Agora sim, a guerra parece ser inevitável entre um Golias que fala muito mas não faz nada e um David que não ataca logo, também não precisa de fazer nada para que o seu opositor vá perdendo as poucas energias que lhe restam. Entretanto, a guerra segue entre os guerreiros de cada um dos colossos em confronto, mas as armas parecem ir mudando de mãos.

Quando as armas que estavam de um lado se vão mudando para o lado contrário, ainda que uma a uma, não há desespero que altere a marcha dos acontecimentos, nem propaganda que resista aos sinais de seca de um campo de batalha onde já nem se bebe um copo para que as gargantas ainda possam gritar uns, ainda que escassos, vivas à vitória.

Agora sim, começamos a saber o que é a verdade nua e crua e não aquela verdade de que tanto nos falaram, que tanto nos impingiram, principalmente, a todos aqueles que a aceitaram como única e insofismável. É esta a verdade que ainda se não clarificou em todos os espíritos mas, com o tempo e com a guerra, é bem possível que venha a caminho.