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afonsonunes

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24 Out, 2008

Conversa de quinta

 

O Anib e o Zé convivem na mesma quinta. Aparentemente há entre ambos uma relação geralmente considerada amistosa e de conveniência recíproca, motivo para satisfação de muitos, e grande preocupação por parte de outros. Situação normal, tendo em conta os complicados conceitos sobre o que são os interesses de cada grupo em causa.
Semanalmente, conversam à quinta e passam em revista os grandes e os pequenos problemas da quinta, sobre os quais se inventam depois muitos recados, e até puxões de orelhas, que não se notam no tamanho nem na cor das ditas. Cidadãos pacíficos.
“Oh Zé, explica-me lá esse descontentamento que vai aí pela quinta toda. Parece que já ninguém se ri, nem ninguém sai à rua… Eu não quero acreditar que isso seja verdade, mas é tanta gente a dizer o mesmo…”
“Ainda bem que falas nisso, Anib. São efeitos das mudanças absolutamente necessárias para que se avance da quinta para a sexta. Como já deves ter reparado, vai quase para vinte anos que o calendário da quinta não era ajustado. Se reparares bem, as pessoas já não se riem, porque há muitos anos que ninguém conta uma anedota com graça. É verdade que também não saem à rua. Tens toda a razão. Agarram-se à televisão, porque não querem perder um segundo do tempo de antena dos políticos…”
“Nunca tinha pensado nisso, Zé. Olha, fico feliz porque também sou político. Mas, também fico triste, porque, assim, a natalidade vai diminuir bastante, o que prejudica a renovação da classe trabalhadora da quinta.”
“Oh Anib, não te preocupes com isso. Quando passarmos para a sexta, tudo vai mudar. Além disso, já pedi um estudo detalhado sobre as mulheres que obrigam os maridos a fechar a televisão…”
“Os maridos, Zé? Olha!... Já quase ninguém casa. Uns namoram, outros juntam-se e os casados separam-se. Não sei onde é que isto vai parar, Zé. Tens de pensar nisso muito a sério, senão qualquer dia… “
“Está tudo controlado, Anib. Estamos quase a passar da quinta para a sexta. Se os homens não querem casar com as mulheres e vice-versa, casam eles com eles… e elas com elas...”
“Não, Zé, aí não estou contigo… Então, e os filhos?”
“Eu explico, Anib. Aí, eu também não estou contigo. Sabes, os filhos passam a vir pela cegonha. Como antigamente. Mas, hoje é quinta. Quando passarmos para a sexta…”
“Isso é muito complexo, Zé… Além disso, ainda não falei sobre esse problema lá em casa. E, como hoje é quinta, não devo pronunciar-me sobre uma matéria tão complicada. Mas, quem tem experiência dessas coisas, deve saber as consequências e, sinceramente, eu não sei…”
Pois, foi assim que nós ficámos a saber. A conversa de quinta volta para a semana.