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afonsonunes

afonsonunes

12 Mar, 2012

Por agora basta

Há coisas que a gente tem de tomar às pinguinhas, senão fica grogue durante uns minutos, ou umas horas, dependendo do que se toma, ou do que alguém nos quer obrigar a tomar. Daí que tenhamos que dizer para nós próprios, ou para quem nos quer indrominar, que por agora basta podendo, eventualmente, disponibilizar-nos para nova tomada do mesmo, mas mais tarde.

Não é difícil perceber que para tudo há doses, ou meias doses, às quais estamos habituados, agora o que não suportamos são aquelas overdoses que nos dão cabo do canastro, por vezes sem nos deixar sequer gemer. É assim em tudo, até nos indispensáveis medicamentos de que muitas vezes não podemos prescindir.

Porém, agora estamos a receber doses maciças de lealdade, ou de falta dela, a que também se pode chamar deslealdade, bem ou mal rotulada de institucional, coisa esquisita demais, quando ela se torna uma mais que evidente justificação para querelas muito antigas mas, principalmente, numa desculpa para o que se fez, ou para o que se não fez e se devia ter feito.    

De tudo isto ressalta que há qualquer coisa que vai ficar para a história. Mas é certo e sabido que a história não é escrita pelos próprios protagonistas, mas sim por aqueles que não estiveram envolvidos nas broncas, nos desastres, nos feitos honrosos ou tristemente célebres, que virão a encher páginas, simples parágrafos, ou ficarão perdidos no esquecimento.

Pobre de quem tiver a pretensão de escrever a história ao jeito do seu ego, mais pobre se tornando se quiser armar em herói tentando aniquilar pelas costas quem, uma vez destruído, julga que lhe trará de volta o prestígio perdido com a sua própria incapacidade para ganhar os louros de vitórias fáceis, que teve ao seu alcance, mas que deixou transformarem-se em clamorosas derrotas.

É muito fácil falar de deslealdades muito depois de o tempo as ter temperado ao gosto de cada um. Porque se esquecem as lealdades que ocorreram simultaneamente. Porque não se referem as cumplicidades vividas durante o tempo em que tudo parecia correr sobre rodas. Porque havia necessidade de acautelar interesses que requeriam muita lealdade institucional, mas falsa e ocasional.

Sempre se ouviu dizer, desde tempos imemoriais que, quem com ferros mata, com ferros morre. Esta máxima vem dos tempos de guerras em que a espada era a única maneira de lavar a honra que se julgava perdida. Perante a espada do adversário, ninguém pensava em lealdades ou deslealdades. Mas os golpes, esses, eram sempre leais.

Nas lealdades ou deslealdades de hoje não há espadas, mas há pessoas que devem dar-se ao respeito, se querem ser respeitadas. Há pessoas que, se querem receber lealdade, terão de ser leais. Se querem receber seriedade, têm de ser sérias. Se querem chegar a heróis, não podem esconder-se, para atacar os adversários pelas costas depois de terem passado.

Principalmente, quem já foi considerado herói por muita gente, não podia cair na presunção de que os heróis vão morrer heróis. Sim, porque os heróis também morrem. Mas, muitos dos que foram heróis por algum tempo, não resistiram às tentações, às bajulações, às incursões pelo mundo dos ódios pessoais e às pressões dos interesses próprios e alheios.

Quando se entra no caminho da destruição de um adversário para com o qual nunca se foi leal, nem solidário, nem respeitador, mas ao mesmo tempo, se não quis correr o risco de o corrigir com meios ao seu alcance, então, diz a história que, quem com ferros mata, com ferros pode vir a morrer. E, por agora basta de nos impingirem lealdades, por mais leais que as queiram fazer.