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afonsonunes

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18 Mar, 2012

Socratite

Espero que ninguém se assuste ao olhar para o título, como tanta gente se assusta ao ouvir o nome que lhe pode ser associado. Mesmo tratando-se de uma doença, em muitos casos incurável, não é caso para se morrer dela, como acontece a outras igualmente incuráveis, mas com as quais se vai vivendo à custa de medicação adequada.

Como disse, e no meu entender bem, vai-se vivendo, malgrado as incomodidades e os desgostos, já para não falar das limitações que essas doenças impõem aos pacientes que delas sofrem, nomeadamente, dos foros psicológico e neurológico. Já tenho ouvido recomendar um bom conselho: cada um deve saber adaptar-se a viver com as suas próprias limitações.

A socratite não é diferente de outras malinas do mesmo género, só que dá um pouco mais de febre, devido a fatores alheios a uma comparação objetiva das causas e dos efeitos que determinaram a sua propagação. Já teve quase a classificação de pandemia mas, entretanto, outras contaminações que foram surgindo, retiraram-lhe alguma força no seu progresso.

Esta doença das doenças, é um pouco como as notações que nos impingem os de fora. Umas vão passando mais para baixo, ou mais para cima, conforme a febre das agências em retirarem os seus dividendos. A socratite vai seguindo o seu caminho, até porque as vacinas que sobraram da gripe não são aconselháveis nesta epidemia. É uma pena, pois escusavam de ir fora ingloriamente.  

O agente causador da socratite já cá não mora, mas há quem não se convença de que pode curar a febre, sem pensar nesse vírus que, na realidade, já anda por outras paragens. E, para mal dos nossos pecados, não temos esse, mas temos outros vírus que nos estão a levar à mesma, se não a pior prostração, que aquela em que tivemos tudo, mas agora nos vai deixando com pouco mais de nada.  

A socratite veio na peugada de uma zapatite espanhola, de uma papantite grega, de uma berlutite italiana e outras ites europeias, que resultaram de espirros infetados de merktite e sarktite, os vírus bons que foram, como agora, elogiados então e, como agora, nas pessoas dos bons alunos em regime de externato e irrepreensivelmente aconselhados internamente.

Enquanto a socratite é uma doença largamente difundida, permitindo evitar contágios aos mais acautelados, não nos faltam doenças mais ocultas ou aparentemente menos preocupantes, no entender dos que sofrem de socratite aguda. Entre elas, as mais esburacadas, são conhecidas como jardinites e  bepeénites, de tal forma ignoradas que até parece que continuam em perfeita atividade.

Mas, se formos mais fundo, por certo encontraremos uma cavaquite crónica escondida, ou pelo menos ignorada, que deixou o país sem aquelas reservas de vitaminas que faziam falta para curar muitas das doenças de que sofremos agora. Além disso, provocou uma guterrite que, à beira do pântano, levou à primeira deserção para a emigração.

Não foi pois de estranhar a segunda deserção, pouco depois, após uma estratégica fuga com  barrosite que, mesmo longe, ainda nos dá muita dificuldade em encontrar os melhores antídotos para as consequências da sua tosse constantemente misturada com espirros. Barrosite que já esteve muito solidária com a socratite, tal como está agora com a passite.

A passite, com as suas variantes gasparite e alvarite, representa a pandemia do presente, atenuadas com a permanente recordação da socratite. Recordação que já ultrapassou a barreira da desculpa, para se transformar na barragem de fogo contra o fantasma e o desespero do insucesso que, por muito refutado, não deixa de ser temido.

Mas, atenção, a socratite não pode durar sempre. Porque, como qualquer doença, ou se vence, ou se morre com ela.