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afonsonunes

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23 Mar, 2012

Mais uma ressaca

Muitos portugueses estão hoje numa daquelas situações em que o corpo não dá mais que uns ligeiros movimentos demonstrativos de um cansaço que vem de trás, acompanhados de frequentes bocejos que querem dizer que na caminha é que se estava bem. Mas isso, obrigatoriamente, fica para amanhã, que é sábado.

Esses cansados vivem uma espécie de ressaca de uma trabalheira dos diabos a percorrer quilómetros e mais quilómetros a pé, coisa a que muito poucos estão habituados, com a agravante de puxarem desalmadamente pelas gargantas mais ressequidas que o habitual. Naturalmente que devia haver nos percursos pedestres umas capelinhas de regular reabastecimento.

Para esses, não foi dia de trabalho, mas foi dia de trabalheira, como já referi. Para eles foi perfeitamente justificada pois, mesmo não ganhando nada com isso, mostram aos que pensam o contrário, que a sua magnanimidade vai ao ponto de perderem um dia de salário para que muitos outros não percam os seus salários por meses ou por anos.

Obviamente que se tratou de uma greve dita geral, muito pouco generalizada, a avaliar pelas consequências que a comunicação social mostrou e os observadores descreveram. Contrariamente às habituais tentativas que outros agentes mais ligados à organização, ou ao sentimento de devoção pela causa, tentaram mostrar.

Bem avaliados todos os prejuízos resultantes dessa paralisação, cá por contas que saíram da minha calculadora, fica muito mais cara ao país, a ressaca do dia seguinte, a ressaca que muitos grevistas viveram hoje, sexta-feira, tanto os que ficaram roucos e hoje não podem falar, como os que nem sentem as pernas e não se têm nas canetas.

Só por esse esforço sobre humano, bem mereciam que o dia de hoje lhes fosse pago a dobrar. Claro que não era para compensar a perda do dia de greve, que isso era uma traição ao espírito grevista e uma indignidade laboral, além de poder ser considerado um favor patronal, coisa que só de pensar arrepia.

É bom não esquecer que greve é luta. E quando se luta convém cerrar os dentes para mostrar que a força do dinheiro ainda não subjuga a força física, bocal e mental, embora diminua, e de que maneira, a força que fica na carteira, também ela cada vez mais débil, ou mesmo já extinta, em muitas delas.

Terá sido a greve geral, de todas as já efetuadas no país, aquela que contou com menos trabalhadores que, efetivamente, se encontram na situação de serviço ativo. Pela simples razão de que terá sido a greve geral que contou com a solidariedade de mais desempregados. Que não perderam nada nesse dia.

Não me apetece entrar pelo caminho de quem ganha e de quem perde nestas greves. Mas entro pela porta que me leva ao sentimento de tolerância entre todos aqueles que dirimem argumentos contraditórios ou seja, a costumada intransigência sindical e a costumada argumentação de um interesse nacional muito discutível.     

Tal como também manifesto a minha total discordância pela costumada troca de mimos entre sindicalistas que se julgam leões na selva, e polícias que nem sempre dignificam o cassetete que têm na mão. Há falsos heróis da selva poupados ao brandir dos cassetetes, que mereciam levar mais, mas também há aqueles que levam por arrasto e levam demais.

Justo seria, nada mais, nada menos, do que dar a cada um aquilo que merece pelo que faz, segundo reza a lei. Ninguém deve ser o bombo da festa, ou da greve. Até para que não haja ressacas dolorosas.