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afonsonunes

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26 Mar, 2012

Paixonetas

Para amenizar um pouco a dura realidade que são os dias de hoje, nada melhor que uma ou mais paixonetas que ocupem as mentes sofredoras, libertando-as de tudo o que as magoa, para lhes proporcionar, em exclusivo, as delícias de pensamentos agradáveis e desejos que vão para além da mesquinhez de só pensar em dinheiro ou coisa que se lhe pareça.

Foi exatamente o que eu fiz e passei a viver sem aquelas angústias de não poder ir ao cinema ou futebol por falta de uma inutilidade chamada dinheiro, que me consumia todas as energias, quase sempre em vão. Porque o dinheiro não se arranja, dizem os que têm muito. O dinheiro dispensa-se, concluem os que chegam à conclusão de que estão a lutar contra moinhos de vento.

A alternativa ao dinheiro, ou à falta dele, é não pensar nisso e tratar de vida por outro lado. Longe de mim, por exemplo, a ideia de tentar ser político, porque eles já são tantos que, mais um que se atrevesse a entrar no meio, era estragar a vidinha aos que já lá estão bem instalados. Longe de mim a perversão de pensar sequer em prejudicar alguém.

É muito mais fácil ser um apaixonado por um deles, sentar-me em frente de um televisor, de preferência a cores, ver como ele se veste, como ele sorri, ouvir tudo o que ele diz com aquela certeza de que tenho na minha frente a solução para todos os meus problemas pessoais, sem gastar um cêntimo que seja a ver qualquer outro espetáculo.

Adoro ver a paixão que muita gente nutre pelos mais variados azes da nossa praça política. Uns pelos poderosos de outros tempos, outros pelos mais que poderosos de hoje e outros ainda pelos mais incisivos na sua paixão, que são aqueles que nunca puderam nada, para além das suas ideias inovadoras que nunca passam a barreira do poder.

Não é preciso ter emprego para me distrair. Não preciso comer para alimentar as minhas necessidades. Basta-me ter o privilégio de poder regalar-me com a proverbial sabedoria do inspirador da minha paixão, para sentir que o meu estômago está confortado. Quanto ao meu espírito, não receio dizer que está plenamente saciado com montes de cultura.

Mas também posso optar por uma paixoneta de outro tipo que o resultado é o mesmo. O futebol, com todas as suas emoções, frente a um televisor quase do tamanho do relvado. Atenção, que tem de ser a cores, senão podemos não ser capazes de distinguir o vermelho, do azul ou do verde, porque essa coisa do preto e branco só serve para os jogadores brincarem aos piropos durante o jogo.

Se a paixoneta vier a recair sobre um árbitro é preciso ter muito cuidado na escolha. É preciso estudar bem o estilo de se movimentar, o seu aspeto físico e os seus antecedentes no que diz respeito aos critérios para fazer bons resultados. Não se pode correr o risco de arranjar uma paixão pelo inimigo, ou por alguém que não aceita fazer um favorzinho a um amigo.

Há lá coisa mais bonita que ter uma paixoneta que nos faz estar as vinte e quatro horas do dia a comentar notícias dos jornais online, chamando os parceiros de lide pelos nomes mais queridos, demonstrando um espírito tão aberto que, revelando a felicidade que sentem ao defender as suas paixões, confortam generosamente os que defendem paixões ocasionalmente menos felizes. 

Toda esta azáfama da procura de emoções fortes que, com a maior das eficácias, combata tendências para a frustração ou para a violência que podem ficar caras, é o melhor remédio para que o país se sinta hoje completamente rendido aos heróis que despertam paixões arrebatadoras, que tornam muita gente feliz. Ainda bem.