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afonsonunes

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Não consigo entender o motivo por que tem de ser assim. Sabido como é que, em todos os dias do ano se dizem mentiras, e das grossas, ainda haja quem insista em querer fazer crer que é salutar dizer umas brincadeiras com verdades no dia um de Abril. Como se alguém ainda pensasse em mentiras e verdades durante todos os santos dias do ano.

Usando aquela lengalenga já tão banalizada, os portugueses sabem que eu não digo mentiras, que mais não seja, pelo simples motivo de que os portugueses não me conhecem de parte nenhuma. Mas conhecem perfeitamente todos aqueles que todos os dias do ano não fazem outra coisa que não seja mentir-lhes. Ocasionalmente, podem dizer uma ou outra verdade no dia um de Abril.

Desta vez, e neste dia um, estou mesmo à beira de morrer porque não oiço ninguém de jeito botar falas em público. Nem mesmo os loquazes e entusiasmantes caraterizadores do regime, como se todos tivessem resolvido meterem uma dispensa ao abrigo do artigo quarto, para que não lhe marquem a dolorosa falta injustificada. 

Talvez tenham uma carrada de razões para recearem o pior, pois fazer uma exceção de boca fechada, precisamente no dia em que a podiam manter mais aberta, levaria logo os seus seguidores a desconfiar da solidez do regime e do significado dos longos, tristes ou cómicos discursos, entre os dias dois de Abril e trinta e um de Março.

Está assim quebrada mais uma tradição tão querida do nosso sereno povo. Lá se vão os discursos inflamados nos feriados políticos que se apagam, bem como as orações nos feriados religiosos que se finam, agora confirmados com a transformação do dia um de Abril, no dia de todas as verdades, que passam ser a voz oficial do regime.

Em contrapartida, nos restantes dias do ano, mesmo nos dos feriados idos ou a ir, continua a poder-se mentir sem qualquer perigo de se ser chamado à responsabilidade. Continuam felizes, aqueles que não sabem fazer outra coisa. Mal dos agarrados à santa ideia de que mentir é um sacrilégio em todos os dias do ano. Só que o problema é saber quem fala verdade e quem diz mentiras.

Chego a ter a sensação de que os tempos que correm estão a levar-me por um estreito caminho que cairá inevitavelmente numa abominável traição à tradição. As palavras parecem estar muito próximas no que à sua grafia diz respeito, mas muito mais próximo me sinto eu do abismo que me precipitará no fundo de um poço sem história nem memória.

Já sinto muitas saudades de ver nos jornais e nas televisões aquelas mentiras próprias do dia um de Abril. Porque essas eram exclusivas dessa data. Mas faziam-me vibrar nesse dia feliz com as boas mentiras, ou arrepiavam-me com as incríveis verdades nuas e cruas. Não havia melhores emoções que os momentos da separação da realidade e da ficção.         

Há lá pior tristeza que esta sensaboria de já não haver nada de novo para nos confortar o espírito e distrair o pensamento. De já não ter-mos sequer uma pequena dúvida de que andam mentiras no ar durante todos os dias e todas as noites. De que os piores mentirosos são os que dizem saber todas as verdades. De que as verdades se escondem nas costas dos maiores mentirosos.

Eu adoro mentiras bem contadas. Daquelas mentiras que não fazem mal a ninguém. Por exemplo, as mentiras sobre o tempo. Dizem-me que vai chover. Mas continua tudo seco. Em boa verdade, o país está mesmo metido numa grande seca.