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afonsonunes

afonsonunes

07 Abr, 2012

Não há dinheiro

Não há o quê? Esta afirmação de que não há dinheiro nunca poderia ser feita por alguém que vive a nadar nele. Pela simples razão de que, quem não tem nenhum, é que não tem dúvidas: existe muito dinheiro só que, quem o tem, nunca diz que tem muito, nem demais. A nível de governantes é evidente que eles só não o têm, quando se trata de o dar a quem tem mesmo de menos.

Dizer que não há dinheiro é um disparate tão grande como dizer que o país está na banca rota. Para desfazer dúvidas basta dizer que os bancos estão a engolir milhares de milhões que o estado lhes mete na boca, sem que se veja que eles a fecham. E enquanto estiver aberta, será sempre a meter mais e mais papinha, como fazem as mamãs na boquinha dos bebés.

Quanto à banca rota, apetece dizer que rotas estão as cabecinhas que não alcançam mais que isso. Rotas estão as mãos que tudo surripiam de onde o dinheiro faz falta para o desenvolvimento e o progresso. Para o meterem nos locais e nas pessoas que, até hoje, só nos deram o desgosto de o fazerem desaparecer da nossa vista e da nossa vida, que bem podia ser melhor sem essas roturas danosas.

Aqueles que se mostram solidários com esta falta de dinheiro vociferando contra tudo o que não lhes cheira a proximidade, não podem conhecer a verdadeira solidariedade. E se a conhecem estão-se marimbando para ela, porque preferem estar do lado de quem retira a quem trabalha, e a quem se esforça por ajudar, todas as possibilidades de se criar uma sociedade mais justa.

Cheios de dinheiro devem estar todos os modelos de seriedade que vomitam ódios inflamados contra aqueles a quem acusam de ter sumido o dinheiro que dizem faltar agora. Quantos desses endinheirados, sabe-se lá como e porque o são, não foram os causadores do desaparecimento do dinheiro que agora não há, mas que para eles não falta. Isto chega a cheirar a esperteza saloia.

Mas, os mais fanáticos endinheirados são de um nível uns furos abaixo dos verdadeiros beneficiados. Dos beneficiados das suas próprias jogadas. Facto tanto mais estranho se considerarmos que para esses não há ódios inflamados expelidos pelos seus fãs mais exaltados, que preferem voltar as línguas em sentido contrário. Para alvos errados. Estranha proximidade. Estranha solidariedade.

Efetivamente este dinheiro que não há, está a causar estranhas reações na nossa sociedade, toda ela já envolta em estranhas vicissitudes. Já não se disfarça o descaramento de pretender esconder as coisas mais estranhas que estão mal e à vista desarmada. Há quem lhes chame maneiras de enganar, manhas, matreirices ou mentiras descaradas. Mas também há quem veja transparência nesta opacidade.

O dinheiro nunca chegou, nem nunca chegará para todos. O que nunca devia acontecer era haver sempre muito dinheiro para alguns, sempre os mesmos, e dizer-se a outros, sempre os mesmos também, que não há dinheiro para eles. Com a agravante de que para o dar aos primeiros, à socapa e sem motivo que o justifique, tem de se subtrair sub-repticiamente aos segundos.

Em boa verdade, não há dinheiro porque já não há vergonha. Não há dinheiro que pague tanta falta de senso no que se diz e no que se faz. No que de diz hoje e se faz o contrário amanhã. Até já nos tiraram a vontade de lhes chamar mentirosos. Em boa verdade, falar de mentiras nestes tempos que atravessamos, já seria uma benesse que eles não merecem de todo.

Aqueles que se orgulham desta etapa da nossa vida coletiva estão contentes e felizes. Estão felizes, porque não lhes falta aquilo que falta a muita gente. Peçam sacrifícios mas não nos escandalizem com as suas estravagâncias e com as suas descaradas faltas de sensatez. E, sobretudo, com a ligeireza da sua argumentação para os sacrifícios que impõem mas não praticam. Dinheiro é coisa que não lhes falta.