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afonsonunes

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O sonho já vinha de muito longe. Um presidente, um governo e uma maioria. Aos presidentes de esquerda sucederam-se governos de direita. Com mais ou menos tolerância nesta convivência entre as duas alas. A verdade é que, mesmo quando os presidentes foram também primeiros-ministros, nunca o sonho da unanimidade se realizou. Foram muitas as diatribes entre uns e outros.

Portanto, desde a aurora da nossa democracia que governos e presidentes demonstravam grandes ou pequenas divergências que abortavam aquela ânsia de poder absoluto ou quase, com vista a implantar no terreno, no país, aqueles sonhos que os manuais de políticas destinados a principiantes tanto exaltavam. Todos eles, sempre, com a boca cheia de interesses do povo.

Havia muitos democratas numa democracia acabada de nascer, o que significa que esses democratas já sabiam muito de outra espécie de democracia, a deles, mas que tinha outro nome que eles quiseram apagar. Ingloriamente, pois o tempo foi abrindo olhos, foi calando vozes, foi mudando o tom de muitas outras vozes que souberam cavalgar a onda. Mas, as raízes estavam lá.

E, que ninguém duvide, sempre que o tempo traz ventos que sentem mais de feição, lá estão eles, voltando à velha democracia, a deles, fazendo tentativas de colocar os seus defeitos, naqueles que querem ver borda fora, porque só assim os seus sonhos podem aflorar-lhes aos lábios e os seus interesses podem começar as conquistas compensadoras das derrotas passadas.

A crise, pois, a crise que só agora começa a ser reconhecida, depois de tanto ter sido minimizada ou substituída por outros argumentos mais proveitosos, essa crise que deu muito jeito, foi quem deu mesmo o empurrão definitivo que garantiu o início do sonho do presidente, do governo e da maioria. Essa mesma crise começa também a ser o pesadelo de não saber lidar com tanto poder.

O poder precisa de ideias e de uma consolidação permanente. O poder não pode ser o poder de tirar poder a uns, para o tomar em exclusivo, a fim de distribuir benesses aos seus, depois do prazer incontrolável de retirar direitos àqueles que não têm o poder de parar ou de mudar as coisas. A gula do poder assim exercido acabará, inevitavelmente, por ter o destino daquele que foi substituído.

Nove meses depois da mudança, já era tempo de vermos o nascituro como símbolo do novo triplo poder, tão desejado como apregoado salvador de uma situação ímpar na nossa história. A acumulação de conhecimentos em aulas franco germânicas, nas quais ser excelente aluno, só nos conduziu, e continua a conduzir, ao chumbo inevitável do exame final.

Essa é a experiência de um bom aluno que fez tudo direitinho como lhe mandaram, mas que acabou por ter muito azar no exame do meio do período. O resultado foi um rotundo chumbo que fez dele uma vítima do abandono escolar. O segundo bom aluno ainda resiste, metendo os pés pelas mãos na matéria já dada. Mas o chumbo está à vista, a qualquer momento do período em curso.

Para cúmulo da nossa pouca sorte, quando ela parecia sorrir-nos irresistivelmente, com um presidente que sabia tudo, com um governo que ia mudar tudo para melhor e uma maioria que ia acabar com a bagunça parlamentar reinante, eis que surge indomável, como nuvem de areia vinda do deserto, a tal crise de que ainda ninguém tinha dado por ela, até que sentiu essa areia a bater-lhe nos olhos.

Agora sim, temos uma crise vinda de fora, temos uma herança ruinosa provocada exclusivamente cá dentro e temos, ao que parece, resultados completamente inesperados e surpreendentes. E agora não adianta dizer que temos um presidente que não sabe nada, um governo que destrói o que estava bem e piora o que estava mal, além de um parlamento que não muda nenhum dos seus vícios.

Andamos tanto tempo a ouvir falar de mentiras que já nem sabemos o que isso é, tal como já não sabemos o que são verdades. Ouvimos falar tanto do sucesso de reformas já feitas, e do efeito benéfico das reformas a fazer, mas só conhecemos as reformas desfeitas aos reformados e a reforma a que muitos deixarão de ter acesso no futuro. Daqueles que lá chegarem, obviamente.

Os portugueses azarados que já saíram do paraíso do sonho, esperam ansiosamente que não venham a cair em breve no inferno que vem atrás do pesadelo que já sentem à sua volta. É muito triste trocar sonhos por pesadelos.