Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

10 Abr, 2012

Donos de más vozes

A voz do dono ecoa cada vez mais forte por montanhas e vales atordoando quem anda nos campos, nas aldeias e nas cidades deste nosso país geograficamente entalado e economicamente depenado. Se é verdade que, aparentemente, tudo tem um dono, nem o país, nem qualquer ser humano o deviam ter. Infelizmente, não se pode dizer que é isso que acontece.

Quando se desce ao nível da miséria que atinge uma apreciável quantidade de cidadãos, as limitações são tantas que não é difícil a quem tem algum poder, controlar e dominar todas as capacidades das pessoas com necessidades básicas. Muitas, no limite da sobrevivência, têm de obedecer à voz do seu dono, que é como quem diz, à voz de quem lhe vai dando a esmola dita salvadora.

Por mais incrível que pareça neste século em que vivemos, há donos de vozes que só entendem a sociedade assim mesmo, ao seu jeito, à sua vontade, onde não têm qualquer dificuldade em obter o que necessitam ou desejam, a troco de esmolas que, muitas vezes, até nem passam de histórias de coitadinhos e palavras de um conforto bafiento e imoral.

E é com essa autoridade imoral que os caracteriza, que dão conselhos a toda a gente, pondo a sua voz ao serviço das suas conveniências, fazendo a apologia dos seus interesses, disfarçadamente, direta ou indiretamente, fazendo ataques cerrados a quem lhes contraria a sua propaganda. Ataques cerrados aos que leem de forma correta a cartilha que aqueles só sabem ler se estiver voltada ao contrário.

Sendo a sociedade formada inevitavelmente por extratos sociais diversificados, ninguém de bom senso se lembra de proclamar o direito à igualdade entre todos, com vista à sua unificação num só. Tarefa, obviamente, impossível, até porque nem todos os cidadãos estariam disponíveis para se integrar num esquema com regras que lhes não agradariam.

Contudo, a nível de pensamento político as coisas passam-se de modo completamente diferente. Parece que muitos dos integrantes de forças políticas diversas, têm tendência para ver no seu ideário o modelo único de sociedade, pretendendo a todo o momento, através das suas vozes de donos da verdade, ridicularizar todas as outras ideias, como se fossem atropelos a essa mesma sociedade.

Depois, no seguimento de tão singulares teorias, não hesitam em ridicularizar pessoas, mesmo figuras de reconhecidos méritos do país ou do estrangeiro, pelo simples facto de que não defendem essas mesmas teorias. E, sempre que lhes apetece, lá se permitem o insulto soez, a arrogância de crer fazer o papel de voz do dono de quem podia, mas não quereria, ser dono deles.

Estranha maneira de pensar, em que para dar solidariedade, aceitam e proclamam as virtudes da diversificação de extratos sociais bem definidos, com a existência de pobres, remediados, ricos e muito ricos. Já para a liberdade de pensamento, tudo fazem no sentido de conseguir que só se pense de uma maneira, à sua maneira, considerando os outros e o seu pensamento, uma condenável aberração.

Para que o mundo fique ao seu jeito, ao jeito das suas ilimitadas ambições, ao jeito da sua ignorância, ou ao jeito das suas limitações, em parte alguma do seu país deveria existir mais que o seu partido, que deveria ser único e inatacável. Porque o outro, principalmente o outro, é um antro de vigarices e de ladrões sem exceção. O deles, não. Pobre, porca, ignóbil e triste visão.     

Assim, não se cansam esses iluminados, de dar sugestões, conselhos e até um certo tipo de ordens, como donos que se julgam, a quem não precisa, a quem nada lhes pediu, a quem sabe bem como tratar da sua vida, a quem, eventualmente, sabe muito mais que eles. Até vemos com frequência quase diária, um partido, ou seus representantes, dizer a outro como devem proceder internamente.

Todas as tentativas de instituir o pensamento único caíram, e cairão sempre, no caixote do lixo do tempo. É já bem evidente que, embora muitas bocas sejam caladas pela fome, as consciências cada vez estão mais abertas e atentas a quem ainda usa esses métodos. E, mais tarde ou mais cedo, o tempo se encarregará de julgar esses donos de vozes perversas. Aliás, como algures já está a acontecer.