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afonsonunes

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26 Out, 2008

O espectáculo

O espectáculo está permanentemente montado e os actores e actrizes estão sempre prontos a entrar em cena, exibindo os seus números com inteligência e firmeza, porque o público está ansioso por aplaudir generosamente o calor que vem do palco. É certo que também há uns ruídos dispersos que se identificam perfeitamente como sendo de um ou outro afinadinho que gosta de patear, mesmo antes do espectáculo começar.

Depois, há quem não goste de espectáculo algum. Argumentam que não nasceram para representar, mas tudo o que mais desejam na vida, é que lhes dêem a confiança necessária para falar em nome de outros, ou seja, para os representar. Dirão que é uma espécie de representação diferente. Seria se, depois, não surgisse o espectáculo de falar em nome de quem lhes deu confiança para tal, e em nome de quem lhes não dá confiança para nada.
Quem não sente vocação para representar, não deve subir ao palco, porque não há nada mais caricato que ver uma actriz sob as luzes da ribalta, com ar carrancudo, olhando de lado para a assistência, resmungando que não gosta de dar espectáculo.
 Está no seu direito de gostar do que lhe apetece e detestar o que não gosta. Mas, em boa verdade, o problema está em não gostar apenas do espectáculo que outros protagonistas exibem. Tudo, porque é assaltada pelo reconhecimento de que a qualidade do espectáculo que desejaria dar, é de qualidade muito inferior, e jamais conseguiria atingir um grau de competitividade aceitável, com aqueles que representam bem, e gostam mesmo de dar espectáculo.  
A única maneira de conseguir um bom espectáculo através do silêncio, é ser um actor ou uma actriz com a fenomenal capacidade de falar com os olhos, com o corpo todo, com a alma inflamada, e fazer do silêncio um hino à imaginação própria e alheia, de forma a contagiar a assistência levando-a a comungar e a viver o seu silêncio de ouro.
O palco é o lugar onde acontece espectáculo. O palco e o espectáculo, são a vida dos actores e das actrizes que não sabem viver fora dele. Quem não se identificar com ele, bem pode mudar de vida. Cada um é para o que nasce. Silêncio, a sério, só na missa ou no convento.