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afonsonunes

afonsonunes

16 Abr, 2012

Vai-se sabendo

‘Não sei onde é que isto vai parar’, é uma das frases mais ouvidas hoje em dia, neste torrão de dúvidas e de incertezas. Pelos vistos, tem sido assim mas, devagar devagarinho, tudo se vai clareando e toda a gente vai ficando a saber aquilo que uns já esperavam e aquilo que outros temiam. E isso é, precisamente, aquilo que quem pode, quer e manda, já tinha no pensamento há muito tempo.

 

Portanto, isto não vai parar nunca. É isso que vamos sabendo aos soluços, talvez por causa de um receio lógico de um choque destrambelhado, vindo exatamente de setores que, se bem o pensam, melhor são capazes de fazer, até o que nunca tinham pensado, antes do momento do destrambelho. Já do outro lado, vai-se tornando hábito de interesse nacional, destrambelhar às escondidas para não estragar a bondade dos choques.

 

Vamos sabendo que, afinal, já não interessa pensar em ir para fora, pois os que lá estavam, estão a regressar à base. Além disso, parecia mal estarmos a estragar a imagem que os nossos parceiros lá de fora têm já do novo país que nasceu há menos de um ano. Um país onde a felicidade pode e deve vir da satisfação de fazermos felizes os nossos amigos lá de fora, mais do que de prazeres mórbidos como o dinheiro e a vidinha fácil.

 

Vamos sabendo que viver bem não é ter emprego, pois isso é um conceito totalmente ultrapassado e um dos muitos grandes males dos últimos anos. Viver bem é confiar nas grandes descobertas destes últimos meses, em que nada se pode prometer, bem como saber esquecer todas as promessas feitas sem resquícios de maldade. Porque a maldade também se inclui em tudo o que foi dito nesse passado dos últimos anos.

 

Vamos sabendo que tudo mudou de há menos de um ano para cá. Trabalha-se menos, obviamente pelo desemprego, mas temos a certeza de que estamos no bom caminho. Trabalhar mais é mau para os trabalhadores. Receber menos é bom para os bons empresários. E que ninguém tenha dúvidas, nunca os trabalhadores poderão estar bem na vida, se não fizerem felizes, todos os velhos e bons empresários que ainda temos no país.

 

Os maus empresários e os maus desempregados só têm um caminho a seguir. Em primeiro lugar, é seguir sempre pela direita. Porque a esquerda só serve para quem quiser estar sempre de costas direitas. Em segundo lugar, é pegar na enxada e na picareta e ir desbravar os matagais que atualmente cobrem uma grande parte do país. Essa tarefa vai demorar algum tempo, mas ela é fundamental par a retoma da nossa economia.

 

Porque eles estão certíssimos do que estão a fazer. Nós também. Nestes últimos anos ninguém se preocupou com estas coisas. Daí estarmos no ponto a que chegamos. Perdão, a que eles chegaram. Agora, porém, tudo mudou. Portugal ficará com boas terras limpas e aráveis, o que vai permitir restituir essas terras aos homens e mulheres que nunca tiveram calos nas mãos, mas estão agora dispostos a enchê-las.

 

Vamos sabendo que não adianta estarmos preocupados com a situação dos hospitais, os quais cada vez servem mais para infetar pessoas que entram lá cheias de saúde e saem de lá doentes. Para não falar dos que entram para lá com duas pernas e saem só com uma, ou perdem uma das duas orelhas que tinham. Isso acabou. De há menos de ano para cá, ir ao hospital, nem pensar. Cada um que se trate em casa para não correr riscos.

 

Vamos sabendo que as reformas são coisa do passado. Mas do passado irresponsável, que dava reformas como quem dá milho a pombos nas ruas. Estes não são como os outros que davam reformas a quem nunca trabalhou. Estes vão acabar com todas as reformas pois, com toda a lógica, como já não há trabalho para ninguém, também não haverá mais reformas para ninguém. Isto não tem discussão.

 

Vamos sabendo que os trouxas que descontaram trinta e quarenta anos para a reforma, não têm de que se queixar, senão da falta de visão própria, ao votarem nos irresponsáveis que lhes criaram essa triste situação. Porque ninguém tenha dúvidas, estes de agora não vão dar continuidade a esse crime e à irresponsabilidade desses criminosos. Portanto, quem descontou, não tivera descontado. Estes de agora vão já proibir os descontos.

 

Resta-nos a consolação de que estamos muito melhor agora que nos últimos anos. Ainda haverá quem tenha dúvidas. Mas, a olhos vistos, vai-se sabendo que cada vez há menos gente que se engana e muito menos gente que já não tem dúvidas.