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afonsonunes

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O fogo pode deflagrar imediatamente a seguir ao rebentamento de uma qualquer bomba relógio, provocado por mãos suavemente criminosas, ou por um descuido na avaliação de uma situação aparentemente brilhante que, inesperadamente, transforma o brilhantismo anunciado, na escuridão de densos rolos de fumo. Nesse sentido, até os avaliadores mais convictos podem acabar como autores de catástrofes inesperadas.

 

Há descobertas políticas que andam no ar durante meses, anos até, envoltas em nevoeiro, como que testando a resistência que irão provocar quando anunciadas de cara descoberta. Mas, até ao momento da verdade, vai-se negando a sua existência com a boca muito pequenina, para se não comprometer a cara com que se vai ficar se a coisa vier mesmo a avançar depois dos testes de hipocrisia concluídos.

 

Entretanto, vai-se criando o ambiente favorável através de medidas circundantes, com o objetivo de atingir aquele ponto em que, finalmente, se possa afirmar sem meias tintas, que a medida tão escondida é agora indispensável, para evitar uma catástrofe muito maior que aquela que a própria medida causaria, no dizer de quem a ela se opõe.

 

Há gente que gosta de brincar com o fogo, inventando mil e uma maneiras de vender as suas ideias, como se fosse um produto salvador da humanidade. Humanidade que eles desprezam em favor dos seus sonhos de grandezas, de fantasias, de lucros, de benefícios. Mas, não raras vezes a ambição e a mania das grandezas se transformam em desilusões e tragédias que por sua vez transformam vidas em martírios.  

 

Estamos precisamente num desses momentos, no que respeita ao plafonamento das reformas. Desde há muito que os seus defensores vêm usando muitas palavrinhas mansas para dourar essa pílula que tem andado escondida no bolso, como uma simples e tímida alternativa, enquanto tudo se vai fazendo para que a segurança social fique debilitada ao ponto de ser posta em causa a sua sustentabilidade.

 

Sempre a velha desculpa do não há dinheiro. A verdade é que tudo se tem feito nos últimos tempos para que não haja, desviando-o para outros lados, ou criando novos sorvedouros. Para não falar da falta de medidas corretivas dos desmandos na atribuição a novos beneficiários. E agora, é já dado como perdido, aquilo que ainda não há muitos meses era garantido como tudo estando bem.

 

Mas, é preciso ter muito cuidado com estes malabarismos que servem interesses bem conhecidos. Já alguém falou em bomba-relógio. Segundo a minha interpretação, uma bomba-relógio não está à vista logo, não mostra de forma clara o perigo que representa sobretudo, porque não permite que se fuja para local abrigado. Quando rebentar, pode até apanhar desprevenido o seu manipulador.

 

As reformas são o sustento de muitas centenas de milhares de famílias com muitos mais seres vivos indefesos, que dependem delas para se manterem vivos. E nós, portugueses, que demos novos mundos ao mundo, não podemos transformar-nos agora, nos indígenas que tantas vezes salvamos da morte, quando descobrimos os recantos onde eles viviam em estado quase selvagem.

 

Diz-se que selvagem é o vento. Sim, o vento que espalha o fogo é realmente selvagem, porque tem a força da destruição, quantas vezes incontrolável. Mas, selvagem é também o incendiário que inicia e estimula essa força destruidora. Como não podem deixar de ser selvagens todas as forças visíveis ou invisíveis que julgam poder apoderar-se do mundo para destruir vidas que dele fazem parte.

 

Os novos mentores de uma sociedade de pobreza, ainda que minimizada com as ajudas de uma caridade salvadora, não livrarão a pele a esses mentores, quando a bomba-relógio deflagrar. E essa bomba é uma caixa de surpresas tão perigosas, que só ao abrir-se revelará todas as consequências que espalhará no meio de todos nós. É sabido que o pão é um suporte de vida. Mas quando falta o pão a vida não vale nada.