Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

20 Abr, 2012

A velha máquina

A tendência natural das coisas é ir arrumando as velhas máquinas, substituindo-as por modernas bombas de alto rendimento e de comodidade inultrapassável para os seus utilizadores. É exatamente por isso que por todo o lado vemos sucata e sucateiros que até estão na berra, só porque fazem o favor de ir limpando alguma da porcaria que abunda, incomodando os donos das bombas que, ao que parece, também queriam mamar um pouco mais.

 

Que somos um país de sucata e de mama, só os que mais mamam não querem ver. Mas somos também um país comparado a uma velha máquina que, apesar de muito aperaltada pelos seus velhos ídolos, está arrumada a um canto desta velha Europa, onde a nata dos mamões dos diversos países se vai gastando pelos corredores do poder, sem procurar a substituição de um ou outro parafuso como manutenção de rotina.

 

Mesmo assim, tarda o tempo em que estes mamões caiam definitivamente na sucata e nas mãos de bons sucateiros que, alimentando regularmente os seus negócios, nos livrem da ferrugem e dos vermes que crescem debaixo destas velhas máquinas, dando-nos um país mais limpo e mais seguro, além de mais imune a roedores e rastejantes que se movimentam nesses locais altamente infetados.

 

Esta velha máquina está de tal maneira deteriorada que dificulta cada vez mais a sua inclusão no negócio de aquisição de uma nova, que seja uma verdadeira bomba em que os portugueses se sintam como se largassem de vez o seu velho chaço e se instalassem naquele espaço em que tudo cheira a novo. O problema é que a velha máquina não vale nada e não há dinheiro que chegue para pagar a nova.

 

A máquina velha anda há muitos meses a tentar uma pintura da qual já ensaiou uma primeira demão. Mas, em lugar de melhorar o aspeto, apenas conseguiu mudar de cor. A máquina, essa, continua mesmo velha, agora um pouco pintalgada, porque ainda se vê claramente a cor anterior. Só que o tempo vai passando e, se a nova cor não consegue esconder a anterior, então mais velha a máquina fica.

 

Esta velha máquina que é o país, não precisa de pinturas, porque já tem cores que cheguem para fazer dele um país agradável a toda a gente. Mas precisa de ir a uma oficina especializada em mecânica geral, multimarcas, onde se possa contar com um especialista em diagnóstico correto e substituição de peças velhas por novas, genuínas, para cada espécime de máquina intervencionada.

 

Porém, há que evitar a todo o custo a intervenção de velhos e credenciados professores estrangeiros, ditos mecânicos, que tão caros nos têm saído, apesar de muito poderosos e badalados. Isto por causa dos bons alunos que eles formaram ao longo de décadas. De bons, todos eles, só tiveram os elogios dos professores porque, a velha máquina, foi-se emperrando até que está a cair de podre.

 

E não adianta que se considere que o último bom aluno foi o culpado pelo gripar da velha máquina. Porque, em boa verdade, foram os professores todos, tal como todos os alunos. Todos deviam ter sido corridos a negativa baixa, ou a chumbo, em todas as disciplinas. Mas, o pior de tudo, é que o mesmo ensino continua. E os mesmos professores continuam. E não há chumbo que ponha fim a este ano letivo de uma vez por todas.

 

A história deste país aponta-nos como professores do mundo em muitas áreas e em muitas civilizações, sem que tenhamos alguma vez sido chumbados por aqueles a quem ensinámos tanta coisa. Não precisamos de continuar a ser uma velha máquina junto da qual vem um qualquer cão estrangeiro alçar a perna. Nem precisamos de ser bons ou maus alunos de professores que não podem ensinar o que não sabem.

 

Quanto aos elogios que os nossos alunos sempre têm recebido desses professores ao longo de, pelo menos duas décadas, eles só demonstram que os bons alunos não são aqueles que estudam, compreendem a matéria e passam nos exames que fazem no seu país, mas aqueles que encornam as teorias que lhes ditam lá de fora, não compreendem nada, nem querem compreender, e passam nos exames através do copianço.                   

 

Assim, esta velha máquina, já deu o que tinha a dar. Já nem o óleo da lubrificação aguenta. É sucata que já nem dá para fazer a felicidade de qualquer sucateiro.