Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Provavelmente vai continuar a falar-se de comemorações nestas horas que antecedem o ainda feriado nacional do dia vinte e cinco de abril. Na maior parte dos casos, isto é, das conversas, elas não passarão de um frete feito ao bem parecer de gente a quem a data nada diz, ou a quem lhe dá jeito dormir a manhã na cama sem ter de ir a correr para a seca do emprego, mesmo naquele em que se não faz a ponta do tal.

 

Mesmo aqueles que ainda guardam do feriado algumas boas reminiscências, não terão grandes, nem pequenas, oportunidades para se manifestarem, ou comemorarem, para lá de beber um copo com os amigos. Já lá vão muitos anos de discursos chatos, em recintos fechados, onde a entrada está reservada aos mesmos de sempre, os que gostam e os que não gostam. Políticos, obviamente.

 

São os tais políticos que nada têm a ver com os ideais do dito vinte cinco de abril, tal como ele foi idealizado e levado para as ruas pelos militares em setenta e quatro, os bem-intencionados capitães do Movimento das Forças Armadas. Porque estes, não representavam partidos, mas falaram em nome do povo, enquanto os políticos, principalmente os de hoje, ignoram o povo e falam apenas e só, nos seus próprios interesses.

 

Como disse agora um dos capitães de abril, num programa de televisão, terá de ser o povo português a saber sair da crise por si próprio, porque o problema que se põe, não é como se resolve a crise, mas como remover do poder aqueles que só sabem agravá-la. Isto é o pensamento de quem verdadeiramente sabe interpretar o sentir de um povo que tudo paga mas nada recebe, um povo que tudo dá, em troca de tudo o que lhe tiram de má-fé.

 

Um povo que só quer que o poder compreenda que nunca pretendeu tirar nada do que legitimamente pertence a alguém. Um povo que apenas quer que a distribuição da riqueza que o país gera, tenha em conta o esforço equitativo de quem a produz. Porque não tem legitimidade quem usa o esforço alheio para se apoderar do que não merece, ou faz com que o produto desse esforço vá parar onde não devia.

 

Esta parte do vinte e cinco de abril nunca foi cumprida, não por culpa dos militares de então, mas por culpa de políticos, tal como muitos dos de hoje, que logo se apoderaram de todos os meios que lhes permitiram ter tudo o que significasse o controlo da riqueza para o progresso dos que, dominando os partidos, passaram a dominar a sociedade, sempre hipocritamente, falando no povo e nos falsos interesses do povo.

 

São muitos destes inimigos do povo que falam em comemorações, que vão fazer os discursos do costume, nos locais do costume, defendendo vibrantemente os interesses dos do costume, do povo, dizem eles, dos hipócritas, diz o povo. Hipocritamente, todos os que contribuem hoje para a violência que diariamente descarregam sobre o povo, não têm pejo em se auto intitular dignos representantes do povo.

 

Vamos para um vinte e cinco de abril em que a austeridade, e tudo o que com ela nos vem sendo oferecido, nos é distribuída com o mesmo princípio de hipocrisia de que ela não tem alternativa, de que ela está equitativamente distribuída e que ela nos vai conduzir a uma situação mais justa e mais digna, não se sabe quando. A verdade é que o povo já conhece essas lengalengas desde o vinte cinco de abril de setenta e quatro.

 

Aos que nem podem ouvir pronunciar esta data sobram motivos para não quererem que lhes toquem em nada. A começar pela austeridade que acham bem, mas não para si próprios. Mais justiça, mas que não se meta com eles, como sempre foi. Que se cortem subsídios a toda a gente menos a si próprios. Que se cortem reformas, mas não as deles. Todos esses se acham com direitos especiais: também são povo, mas não um povo qualquer.

 

Por solidariedade para com o verdadeiro povo deste país, o povo que é esbulhado da riqueza que produz e paga as extravagâncias do outro povo, o povo de todas as mordomias, o povo que esbanjou e nada quer pagar, este vinte cinco de abril merecia uma comemoração muito diferente daquela que tem tido. Uma comemoração silenciosa, deixando os oradores de salão a falar sozinhos.

 

O povo, na rua, devia aparecer vestido de luto, pela morte lenta dos seus reduzidos direitos.