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afonsonunes

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24 Abr, 2012

Hoje, 24 de Abril

Este dia de hoje, no calendário, é um dia como qualquer outro e, logicamente, antecede o dia 25. Em qualquer mês do ano é assim e isto não constitui uma invenção de qualquer espécie. Mas, tratando-se do mês de Abril, a coisa muda imediatamente de figura. E não é porque seja um mês de primavera.

 

Se o dia 25 de Abril tem, desde há trinta e oito anos, um significado muito especial para muita gente, o dia 24 de Abril tem também um significado muito especial para toda a gente que não gostou do 25. É evidente que todos temos o direito de gostar ou não gostar de determinados dias do mês.

 

Só que o 25 representa para os que a ele aderiram, um dia de explosão de alegria e de mudança de vida. Para os adeptos do 24, este dia representa o fim de uma época que morreu exatamente nesse dia, enterrando-se com ela vidas de felicidade, trocadas pelo início de vidas que se tornaram de sofrimento.

 

Os chamados saudosistas do passado não comemoram o seu dia, o dia de hoje, porque a saudade não é tanto um sentimento expansivo de festa, ou de comemoração, mas um sentimento de dor e de reflexão que leva preferencialmente ao silêncio dos sofredores.

 

Temos assim nos dias de hoje e de amanhã, todo um mundo de contradições que profundamente dividem a sociedade portuguesa. Há quem diga que se trata da clivagem natural entre esquerda e direita, ou uma maneira dos partidos políticos marcarem as suas divergências.

 

Os que hoje refletem não comemorarão amanhã. Os que amanhã vão comemorar não querem refletir no dia de hoje. No entanto, com comemorações ou com alheamentos, ninguém devia passar ao lado destes dias 24 e 25 de Abril de todos os anos. Tal atitude levaria a que muitos despertassem da permanente letargia em que vivem.

 

Este ano surgiu uma nova atitude assumida por gente que não precisa de protagonismo. É a atitude de protesto contra a interpretação que faz do que vê. Precisamente, os capitães de Abril e figuras gradas da democracia, intervenientes no antes e depois da revolução dos cravos. Gente que não recebe lições de qualquer um.

 

A reflexão de todos não faria mal a ninguém, porque temos grandes motivos para refletir sobre o passado que deu muitas glórias ao país, e temos muitos motivos para comemorar as transformações operadas nos últimos trinta e oito anos. Tal como temos muitos motivos para lamentar o mal que muitos nos fizeram.

 

O país só teria a ganhar com a reconquista de muitos dos valores do passado e os metesse na onda de progresso que muitos não querem ver. Quase sempre por causa de uma cegueira que pretende ver tudo com os olhos fechados. Ou ver sempre os argueiros nos olhos dos outros e ignorar as trancas dos seus.

 

E isto não é dourar pílula nenhuma, nem tão pouco esquecer tudo o que de mau o país viveu ao longo da sua história. E foi muito, como o demonstra o momento que vivemos que, quer se queira, quer não se queira, tem muito mais culpados do que muitas vezes se pretende fazer crer.

 

O país não é um covil de lobos famintos que se alimentam de rebanhos de carneiros. O país tem lobos famintos, tem carneiros distraídos mas, ainda tem muita gente que sabe distinguir esses animais de instintos primitivos e opostos, do que deve ser uma sociedade de pessoas, no verdadeiro sentido da palavra.

 

Afinal, os dias 24 e 25, tão próximos no calendário, bem podiam estar muito mais próximos nos sentimentos das pessoas, as quais só teriam a ganhar com mais proximidade e com menos ódios a separá-las. O país precisa de lobos e de carneiros. Mas não na vida política.