Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

 

Durante os trinta e oito anos de Portugal democrático nunca tinha visto tanta demagogia, tanta mentira, tanta baboseira, todas juntas, como aquelas que fiz o frete de aguentar durante as mais de duas horas em que segui pela televisão as cerimónias fúnebres das comemorações do dia da falta de liberdade.

 

Aqueles discursos estavam mesmo a condizer com os muitos cravos que se acumulavam atrás dos oradores partidários, todos voltados com o vermelho para baixo e o caule verde para cima. Exatamente ao contrário do que deviam estar: de pé, como qualquer árvore ou planta que preza a sua dignidade.

 

Até me deu a sensação de que estava ali o vinte e cinco de abril de pernas para o ar, tal qual os cravos moribundos a pender daquelas mesas a revelar muita fartura. Como também me surpreendeu a quantidade de cravos nas lapelas e as gravatas vermelhas nos pescoços habitualmente engravatados de laranja.

 

Nos discursos do costume, as mentiras do costume e a verborreia característica de quem tem de ocupar os minutos do costume, ao microfone do costume, sem dizer absolutamente nada do que interessava ao país ouvir daqueles que, é costume, intitular de seus representantes.

 

Todos falaram daquele vinte e cinco de Abril que a cada um deles interessava revelar. Não falaram do vinte e cinco de abril que o povo festejou nas ruas há trinta e oito anos. Não falaram do país que o povo vive hoje, depois de trinta e oito anos de sonhos e de esperanças frustradas.  

 

Houve até quem falasse muito do pouco ou nada que fez, e quem falasse muito do que julga que está a fazer, mas apenas consegue mostrar o que não é capaz de fazer. Também houve quem falasse, mais uma vez, do que está farto de repetir ao longo dos anos, mas que não passa de um simples e velho disco mais que riscado.

 

Ao olhar para aquela assembleia dita comemorativa, pareceu-me ver ‘em cada rosto igualdade’, mas uma igualdade marcada pela unanimidade na mentira e na demagogia de quem quer falar muito dizendo muito pouco daquilo que aflige os portugueses e isso não merecia ser comemorado, mas vivamente condenado.

 

O meu olhar perscrutador e ávido de ver e ouvir o que se estava a passar ali, obrigava-me a ver a todo o momento, ‘em cada rosto igualdade’, perante o espanto do ruído dos discursos que se sucediam, sem que se visse nem ouvisse ali, na casa da democracia e do vinte e cinco de abril, uma única palavra para o povo ouvir.

 

Mas ouvi falar de mais de quem lá não estava, como se o dia não fosse de liberdade para estar ou não estar, ali ou em qualquer lugar, como se alguém não fosse dono dos seus atos, ou tivesse de ser servo da vontade dos outros, mesmo que atraiçoando os seus próprios princípios, subjugando-os aos interesses dos seus ‘amigos’.

 

Pelo que ‘tenho visto e ouvisto’, do povo que por vezes até fala assim, nem eu, nem esse povo, conseguimos ver ‘em cada rosto igualdade’, talvez porque o povo cada vez suporta mais as lágrimas a escorrer pelos seus rostos fechados, enquanto os discursadores cada vez mais abrem os seus largos sorrisos em rostos felizes.