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afonsonunes

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27 Abr, 2012

Caixeiros-viajantes

 

Caixeiro é todo o indivíduo que anda com a caixa. Pode trazê-la às costas, pendurada no braço, ou carregada num qualquer meio de transporte. Viajante, obviamente, diz-se daquele que viaja mais ou menos permanentemente. Sendo caixeiro-viajante, não é difícil adivinhar que quem viaja é, por dever de ofício, o indivíduo que põe a caixa a viajar na sua companhia, num gesto constante de abre a caixa, fecha a caixa, mostrando o que tem lá dentro.

 

Os mais novos não conhecerão esta velha ocupação profissional mas podem estar perto de vir a conhecê-la, até porque ela pode vir a ser uma boa e nova proposta de emprego para os muitos que, por mais que viagem, ainda não conseguiram descortinar nada que os ponha a fazer qualquer coisa. Quanto aos mais velhos e desempregados, dirão que estão fartos de andar a toque de caixa uma vida inteira.

 

A caixa antiga que estará prestes a conquistar o mundo do emprego é uma ideia moderna que um ilustre viajante bem português descobriu, para recomendar aos que muito falam em trabalho, mas não descobrem maneira de o desencantar. Simplesmente, porque ainda ninguém lhes disse que, antes de mais nada, é preciso meter na caixa, tudo o que possa representar negócio, ou seja, fazer da caixa, uma boa fonte de trocas comerciais.

 

O caixeiro-viajante tem hoje outros nomes mais pomposos, como delegados de vendas, promotores de vendas, delegados de propaganda de qualquer coisa, ou semelhantes. Percorrem o país em bons carros, têm os seus hotéis ou residenciais com marcação antecipada, tal como acontece com os seus contactos feitos através de visitas regulares. Dantes traziam as amostras dos produtos dentro da caixa. 

 

Hoje, anda quase tudo dentro do portátil, daí que já não sejam caixeiros, embora continuem a ser viajantes pelo país inteiro, com tendência a utilizar o avião e a viajarem também para fora de portas. E esta é a inovação que está a dar, como solução milagrosa para o combate ao desemprego, que é a segunda causa de todos os males do país. A primeira é, obviamente, aquela que o governo chamou de herança de um delegado de propaganda.

 

A nova política universal do país é o desenvolvimento desta ideia genial que vai colocar todos os meios humanos disponíveis a bem, ou indisponíveis a mal, na rota do moderno caixeiro-viajante, denominação que se manterá e se pretende seja um símbolo de imagem de um país que vai fazer de tudo o que é velho, a nova maneira de atrair toda a modernidade que, de fora do país, traga aquilo que nós nunca tivemos: dinheiro vivo.  

 

Razão mais que suficiente para o êxito desta cruzada do novo país, é a alta especialização e a vasta experiência vinda de um passado glorioso, do seu autor e dinamizador, tanto no aconchego do lar, como nas abundantes viagens sempre com roteiros bem escolhidos e muito bem organizados, com frutos à vista de toda a gente que não pretenda apenas divertir-se com outros frutos mais virados para o chiste.

 

Depois, temos já uma plêiade de bons caixeiros-viajantes em atividade plena, que percorrem o mundo de avião, em classe turística, sulcando os ares em todas as direções, tocando todos os bons aeroportos, os melhores hotéis, contatando promotores do bem-estar do mundo inteiro. Ótimo ambiente para que os nossos caixeiros-viajantes, mostrem que também sabem viver de bem-estar, enquanto falam do nosso Fado e do nosso Pastel de Belém.

 

Agora, numa segunda linha de ataque, foram convocados todos os portugueses para falar daquilo que bem conhecem. Serão os caixeiros-viajantes para a promoção da imagem. Daí que todos tenham obrigatoriamente de se munir de telemóveis de última geração, máquinas fotográficas e de filmar digitais, preparadas para, em qualquer lugar do mundo, mostrarem as respetivas gravações.

 

Só falta definir um pormenor importante das deslocações. Para o país não ficar deserto, temos certamente que ir por turnos, porque é preciso tratar dos incapazes que não podem ir. Depois, têm de dizer se vamos a pé ou de trotinete, pois dinheiro para outros meios, para nós, não há. Quanto ao resto, contem connosco.