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afonsonunes

afonsonunes

27 Out, 2008

Só podia ser ela

 

Não é que ele seja desconfiado por aí além, mas a verdade é que já tinha alguns indícios de que estava a ser perigosamente perseguido durante alguns períodos do dia, especialmente, quando mais devia concentrar-se nas suas obrigações profissionais. Apesar dessa sensação de alguma incapacidade para lhe resistir, fazia um esforço para ignorar essa desconfiança, que podia prejudicar bastante a sua imagem, caso viesse a ser do conhecimento público.
Sentado na sua secretária, a meio da manhã, depois de uma saída para a segunda bica, mais uma vez lhe pareceu que a tinha na sua frente, quase transparente, levemente provocante através de um sorriso dúbio, que o deixava naquela espécie de levitação do pensamento, à espera que ela o libertasse, por via do seu desaparecimento para lá da janela do gabinete, agora envolto numa penumbra consoladora.
Não tardou a chegada da hora do almoço, durante o qual se viu liberto de todas as tentações, até porque logo lhe ocorreu que, também ela, devia ter a sua hora de almoço. Ele, mais os seus companheiros habituais de refeição, renderam-se aos prazeres da comida bem regada e acompanhada de deliciosas conversas sobre os temas mais quentes da actualidade. Esta hora e meia bem passada, tinha o sabor de escassos minutos, contrariamente às longas e intermináveis horas de suplício laboral, apenas suavizadas pelos intervalos das bicas regeneradoras e dos momentos em que ela aparecia sorrateira no gabinete.
Era então, a seguir ao almoço, que ela era mais irresistível e sedutora, levando-o cerrar os olhos por algum tempo, por vezes longo, por vezes breve, se algum imponderável laboral, via telefone, vinha interromper aquele namoro em que ele e ela se envolviam quase instintivamente, naquela sessão diária habitual.
Não será muito difícil imaginar a identidade destes eternos apaixonados, discretos, silenciosos, muitas vezes secretos. Ele, é um espécimen de trabalhador, ainda no activo em certos locais públicos ou privados. Ela, desempregada, disponível, tentadora, é a irresistível Preguiça.