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afonsonunes

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29 Abr, 2012

Um pote no deserto

 

Era uma vez um pote que teve o azar de ser colocado no meio de um deserto com uma quantidade residual de água, à volta do qual muitos camelos circularam na esperança de um abastecimento que lhes permitisse aguentar a viagem até ao oásis mais próximo. Ao que consta, esses camelos tanto circularam que acabaram por ficar tontinhos vindo a sucumbir nas proximidades do pote.

 

Entretanto, outros camelos sedentos, ao toparem um pote tão apetecível num local tão inóspito, logo se precipitaram sobre ele pensando ter descoberto uma fonte inesgotável do precioso líquido. Afinal, depressa descobriram que o pote estava quase vazio. Desataram então a olhar o horizonte com as patas dianteiras a fazer de pala sobre os olhos com vista a descobrir sinais da tão sonhada fonte.

 

Fonte que não conseguiram descobrir mas, em contrapartida, descortinaram os restos dos camelos que os antecederam no assalto ao pote. E foi nesses restos de cadáveres que despejaram a sua ira, por pensarem terem sido eles quem secou o pote. Desesperados, cansados de tanto espezinharem o que restava sobre a areia escaldante, nunca mais deixaram de ver o pote como uma herança de algum espírito diabólico.

 

Os tempos vão passando e o deserto lá continua com o pote a meter areia que o vento levanta e de água, nada, ou não fosse aquele lugar o centro de um deserto mesmo a sério. E os camelos lá vão resistindo como podem, com o grande incentivo de que não foram eles que secaram o pote. Mas, em lugar de procurar o precioso líquido, com esforço e persistência, consolam-se com o pensamento na herança diabólica.  

 

Esta é a história de um pote que sempre desencadeou muita sede, mas nunca satisfez plenamente os muitos que dele tentaram apoderar-se. Porque uma coisa é encher a barriga uma vez, outra é sustentá-la sempre cheia. Principalmente, quando há amigos a quem não se pode recusar uma parte do que se tem. Ou seja, há amigos que até nos exigem que partilhemos tudo, sendo o melhor bocado para eles.  

 

Por vezes penso que o nosso país é um deserto, mas não me cabe na cabeça que tenha um pote. Ainda que em tempos idos o tivessem escondido na areia, depressa o teriam descoberto e partido em mil e um cacos, atendendo à ganância que sempre dominou a sua disputa. E se o país não é um deserto, então, também é provável que não tenha camelos, mas não restam dúvidas de que tem homens muito piores que camelos.

 

Que mais não fosse, no campo das ideias. Tudo parece caminhar no campo do atrofiamento, da restrição, do empobrecimento em todos os sentidos, em lugar de se promover o alargamento de horizontes e a liberdade na vivência da cidadania, que propiciam o aparecimento de iniciativas que, por sua vez, são geradoras de trabalho, de emprego e de riqueza, ações muito mais eficazes que toda a propaganda enganosa.

 

Fala-se exclusivamente a linguagem do dinheiro e de quem, exclusivamente, tem o poder de controlar a sua utilização. Não se fala das pessoas que podiam transformar dinheiro em mais dinheiro, através da riqueza do seu esforço, da sua vontade de levantar o país com o seu trabalho. Mas fala-se também já, ainda que em surdina, na vontade de calar vozes incómodas, vozes que não estejam previamente autorizadas e sintonizadas.   

 

Também se fala num determinado tipo de coragem. A coragem de quem nos impõe uma vontade que radica na obediência cega a quem dá as ordens. Só se falarem da coragem de não ter coragem para dizer não, quando as ordens são manifestamente um atropelo a todos os compromissos assumidos e a todos os interesses dos que vão sendo obrigados a perder a voz, com medo de perderem algo mais.

 

O nosso pote está vazio, consequência de muitas espécies de sede, entre elas a sede dos agiotas que comandam o mundo e têm aqui, altos representantes e fieis colaboradores. Até são corajosos por tomarem medidas de outros, ou que outros lhes impõem. Que têm a coragem de espremer o seu povo para cumprir, até com exageros, as ordens que lhes exigem cada vez mais sumo do trabalho desse povo que vai definhando cheio de sede.