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afonsonunes

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02 Mai, 2012

Está de chuva

Mas que saudades que eu tinha

Desta chuva miudinha

 

Sim, esta seca que se prolongava há largo tempo estava a deixar-me angustiado. Se há coisa que eu preciso é de ver água, sentir água à minha volta mas, sobretudo, vê-la cair lá do alto, sobre os telhados da cidade, sempre pensando que ela também está a cair nos campos, onde a terra nada nos dá se não for bem regada depois de cada seca que o nosso astro rei resolve infligir-nos por mais ou menos tempo.

 

É evidente que não gosto de ver meter água a quem devia estar a fazer outras coisas. Essa, tomara eu vê-la pelas costas, bem como os seus dispensáveis portadores. Mas adoro aquela chuva miudinha, também chamada a chuva de molha parvos. Obviamente que ela só molha os parvos que a ela se expõem e, confesso, quantas vezes sou eu a submeter-me a esse teste de parvoíce, deixando que ela me molhe mesmo a sério.

 

Contudo, há alturas em que a chuva miudinha, por muito prazer que proporcione a quem gosta de senti-la no rosto, não resolve os problemas que a seca nos levanta. E então, só umas boas chuvadas que façam correr barrocas e ribeiras, poderão encharcar os campos, engrossar os rios e encher as barragens de onde a nossa vida depende. Daí que até haja quem cante – tomara que chova, sete dias sem parar.

 

Sabendo que não é essa a sensibilidade de muita gente, que se sente deprimida quando chove, que odeia ter de trazer um guarda-chuva pendurado, ou ter de dar uma corridinha quando se esquece dele, a minha depressão ocorre precisamente quando o sol e a lua teimam, durante muito tempo, em não deixar que as nuvens os ocultem para cumprirem a sua missão de acordar a terra com uma oportuna chuvarada regeneradora.

 

Depois da festa de tantos meses de sol de que tanta gente gosta, finalmente começou a chover. Dizem que é S. Pedro que manda nesses domínios. Parece que só se lembrou dos portugueses e da sua sede, nestes dias que já deviam ser de praia para os amantes do mar. Apesar de tardia, venha de lá essa chuva que a praia pode esperar, até porque as carteiras também estão à espera, e podem esperar, por melhores dias.

 

Nestes domínios das carteiras é o Pedro de S. Bento que tem a última palavra a dizer. Por mim, estou com muita dificuldade em saber qual é a sua última palavra, visto que não posso estar minuto a minuto à espera que ela saia. Porque ele é muito mais inconstante que o santo meteorologista que mora lá nos altos. Que, tal como o Pedro cá de baixo, tem o senão de se esquecer das necessidades do pessoal, porque já não reza tanto como costumava.

 

A chuva miudinha também parece ter assentado arraiais ali para os lados de Belém. Cheira-me a que ela se deve a humidades vindas do Tejo. O chefe Silva, que é fervoroso adepto do Belenenses, diz que não tem nada a ver com isso, pois ele gosta muito é do mar e Belém fica em terra firme. Depois, anda agora muito deprimido porque o seu clube, que já foi grande e triunfador, anda a arrastar-se pela liga dos últimos.

 

E há quem diga que o chefe Silva nunca mais será o mesmo. Porque o Belenenses também está como ele. E um sem o outro, nada feito. Para mim, a chuva comanda o país. Gosto muito da chuva miudinha mas, repito, há alturas de seca em que se precisam mais de sete dias seguidos de chuva sem parar, daquela que faz estrondo ao cair no chão seco como as palhas. Só assim se poderá regenerar algumas das perdas já registadas.   

 

Provavelmente, teríamos uma ou outra inundação. Mas o país está a precisar de uma boa lavagem. E o mar acolhe tudo o que água da chuva lhe manda. Talvez ela levasse um ou outro embrulho misterioso que ninguém consegue abrir. Problemas desses só dependem mesmo de S. Pedro. Mas, infelizmente para nós, portugueses, tinha de haver dois santinhos desses. Para que cada um levasse os embrulhos que lhe convinha.

 

Está de chuva e o resto é conversa. Por mim vou-me contentando com a chuva miudinha que me refresca e me mantem a esperança de que a chuva engrosse, faça correr os rios e encha as barragens, para que o peixe continue a desovar e as pessoas continuem a falar do que corre e do que devia correr. Mas, haja chuva, para que depois, o sol volte a brilhar.