Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

12 Mai, 2012

Amigos da onça

 

A onça de tabaco avulso naquele saquinho de papel já tem poucos amigos. Mas no tempo em que os cigarros em maços eram uma carestia para os consumidores pobres, que mal ganhavam para comer, era a mortalha enrolada com uns filamentos de cada vez, que servia de mata vício aos dependentes da fumaça. Também havia os que se contentavam com as tochas feitas com barbas de milho enroladas num papel qualquer.

 

Dantes os camponeses não tinham a quem pedir nada e só podiam contar com os míseros tostões que lhes davam aqueles que lhes pediam trabalho. E esses tostões não davam para mais nada, que para o pão deles e da família. Portanto, se podiam encostar-se a quem lhes deixasse ter o prazer de se servir da sua onça, esse era um amigo verdadeiro, um amigo que se prezava até ao limite. Porque era o amigo que tinha a onça do prazer.

 

Se hoje já não há amigos da onça, pois já nem sequer se veem onças, proliferam os amigos do dinheiro, uma verdadeira onça para os viciados no vil metal. Que, aliás, não está hoje na base de muitas das grandes amizades, no campo das aparências, que parecem mesmo de uma verdade indesmentível. Mas, dinheiro é negócio, não é amizade, porque, amigos, amigos, negócios à parte.

 

Hoje, porém, estou mais voltado para os amigos da onça. Porque me entreguei ao esforço de pensar como é possível haver gente tão importante no nosso meio político que anda completamente na dependência da onça dos outros. Claro que eles podiam fumar havanos puros, uns atrás dos outros, mas a sua dependência está entranhadamente ligada ao vício que lhes vem de pequeninos. Mais e mais, sempre mais.

 

Estou a lembrar-me desse que já nem defende intransigentemente os interesses da família, porque não gosta de um dos filhotes que é muito seu amigo mas, de vez em quando descamba para a desobediência, principalmente verbal, o que irrita a sensibilidade do paizinho. Ora, um e outro, são muito sôfregos da sua autoridade e da sua ânsia de donos dos destinos daqueles de quem se julgam os bons e fiéis tutores exclusivos.

 

Entre o paizinho e o filhote, o clã de outra família muito próxima em rivalidades, conseguiu intrometer-se, numa jogada arriscada, buscando o dono da onça que pode guindá-lo ao lugar do filhote desavindo. O paizinho deste, aceita a cortesia para que o filhote sinta que um pai não tem que estar sempre do lado dos teimosos. Tudo isto, sem beliscar minimamente, as aparentemente boas relações familiares.

 

Depois, no meio de tantos amigos da onça, dará ao paizinho um certo jeito demarcar-se, aparentemente, de alguns, enquanto lhe convirá aproximar-se daqueles a quem negou outrora uma pitada da sua onça. Quando os tempos correm envoltos em sombras provocadas por nuvens imprevisíveis, convém que os acessos à onça se multipliquem não vá o diabo, inesperadamente, tecer alguma surpresa, no meio de algum vendaval inesperado.

 

Aliás, vendavais, é o que não tem faltado a passar por cima das cabeças dessa família aparentemente tão sólida e tão virtuosa. Todos os amigos da onça que andam à volta dela, têm conseguido soprar o cheiro do tabaco para os vizinhos do lado que, não se sabe com que propósito, estão a sujeitar-se ao fumo passivo de quem se tem limitado a soprar esse veneno para o seu lado. Mas, ao que parece, não será para sempre.   

 

Aliás, segundo as últimas profecias do filhote desavindo, pode não ser negativo passar fome durante muitos meses ou anos, pois maior será a sua vontade de comer, quando aparecer um amigo da onça que lhes dê uma oportunidade de desenferrujar as mãos a troco de umas fumaças numa mortalha enrolada sem nada dentro. Será mesmo muito positivo que os donos da onça possam dar uma oportunidade a alguns amigos mais fiéis.

 

O paizinho e o amigo da onça e da ocasião, numa aproximação que cheira a ambiente poluído, divergem muito no conceito dessa poluição: para um, esse ambiente traduz-se num entendimento que não oferece dúvidas a ninguém, pois ele é calmo, sereno e será feliz a curto prazo; para o outro, é tudo grave, cada vez mais grave, com tudo a resvalar, de muito grave para greves a curto prazo.

 

É assim que podemos ter muita confiança no futuro que se vem anunciando como um vasto pomar cheio de aromas e sabores, cheio de coisas positivas, dentro de pouco tempo, que começam, e ainda bem, por umas coisitas negativas. Amigos da onça.