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afonsonunes

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16 Mai, 2012

No bem bom

 

Qualquer criminoso com categoria gostaria de terminar a sua carreira no bem bom da sua casa luxuosa, onde o crime até deu para isso mesmo: tornar a sua moradia num lugar agradável onde possa passar dias felizes, em alternativa àquela cela tipo estúdio, onde não falta nada, mas o espaço exíguo não tem nada a ver com o salão do piano, ou o jardim com árvores tropicais e relvados que apetece pisar.

 

Porque qualquer criminoso de categoria sempre esteve habituado a pisar. E na cela dourada até pisava a carpete ou o tapete que lhe fazia cócegas nos pés quando se descalçava e onde ensaiava um ou outro exercício físico para desentorpecer as pernas. Mas esse pisar não dá o gozo que se sente quando se pisam pessoas sobre quem se cometem os crimes que ali os levaram. Quando se pisa a quem até se tirou a vida.

 

Mas, quando este está no final de carreira, apetece ir pisar o chão de casa, para esquecer aquele ruído incómodo dos marginais sem categoria que passam o tempo a brigar uns com os outros quando fora das celas, ou a declamar poemas em louvor do privilégio de terem um lugar seguro para estar. Para muitos destes, ir para casa, é um castigo só compensado com o pensamento no regresso.

 

Cada um com o bem bom que merece. E os merecimentos de cada um são avaliados pelos meritíssimos depois de saberem os pormenores das vidas bem más que todos levaram fora de casa. Agora o que nem todos merecem é uma pulseira que dizem ser eletrónica. Também não sei para quê. Normalmente, estes portadores de pulseiras, já têm nos seus bem bons tudo o que a eletrónica tem de melhor.

 

Qualquer criminoso com categoria social acima da especial, permite ao estado poupar muito dinheiro com a atribuição do estatuto de preso no domicílio com pulseira eletrónica. Apesar de ser o estado a suportar o custo da aquisição dessa pulseira, dado que seria injusto ser o seu usufrutuário a ter de arcar com essa despesa. Pela simples razão de que já lhe retiraram todo o pecúlio que arranjou na má vida. 

 

Como disse, o estado poupa muito dinheiro. Compra a pulseira mas não lhes dá de comer. E há quem diga que eles comem bem. Muito e do bom. Também não lhes fornece aqueles fardamentos com calça, casaco, boné e um ou outro agasalho. Porque são muito friorentos. Não gasta eletricidade com aquecimentos, luzes, bem como despesas com lavagem de roupas de corpo e da cama. E limpeza diária da cela.

 

Resta-me saber se, como os soldados na tropa, os presos também recebem o seu pré. E se recebem, também não sei, mas faço ideia, que o pré dos criminosos de categoria social acima de especial, deve ser a condizer com esse estatuto. O que deve dar para lá de uns dinheirões, pois estou mesmo a ver a reivindicação deles de que, se não lhes pagam coisa de jeito, querem imediatamente ser postos em liberdade.

 

Continuo a dizer que não sei, mas se o criminoso de categoria especial não tiver direito a pré quando usa a pulseira em casa, isso representa uma poupança considerável, no caso de receber esse pré, enquanto preso na cela. Agora imagine-se que todos aqueles criminosos de categoria especial que andam ou andaram no gamanço, estavam em casa com pulseira eletrónica.

 

Neste caso gastava-se muito nos milhares de pulseiras eletrónicas, mas poupavam-se os muitos milhões que eles custam ao estado, nas mil e uma maneiras que eles têm de nos tirar tudo do nosso bolso e passá-lo para o deles. Depois, vêm com o argumento de que temos de empobrecer por necessidade. Até podiam ter alguma razão, se nos mostrassem que eles prescindiam de enriquecer cada vez mais.

 

Como se não bastasse o bem mau que deixam para os outros, ainda se arvoram em guardiões de todos os direitos daqueles a quem, paulatinamente, lhes vão retirando o pouco que ainda têm, não para que o país se restabeleça, mas para que haja criminosos sem deveres, autênticos nababos refastelados em poltronas onde não fazem nenhum, para além de bocejar e dormir durante todo o dia. Esses, sim, vivem mesmo no bem bom.