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afonsonunes

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18 Mai, 2012

Mas que saudades

 

Ao saber que tinham partido, andei tempos infindos a olhar para o ar na esperança de ver a máquina voadora que eu sabia que os levava. Não com aquela ideia fixa de que merecia um simples adeus com o braço de fora, por muito pequenino que ele me pudesse parecer àquela distância, mas com a noção do reconhecimento que julgava merecer, na qualidade de um dos pagantes de tão grande e cara viagem.

 

Talvez por causa dessa desilusão de tanto ter olhado para o ar, sem qualquer resultado, as saudades que eu imaginava ir sentir com grande profundidade, foram-se esvaindo com a ideia de que, quem assim se afasta de mim, sem um sinal de despedida, no meu modesto entender, podia significar que eles, os que partiam, também não estariam muito afetados por algum resquício de saudades dos que ficaram.

 

Estranho muito que numa máquina voadora com tantos lugares não se arranjasse um cantinho para que eu fosse um dos felizes viajantes. Se coube a vez a tantos que já estão fartos de correr mundo, bem podiam lembrar-se de mim que ainda não corri nada. Até nem me importava de contribuir com uma importância simbólica para ajudar aos custos do combustível. Isto, para além do pesado contributo que me cabe como contribuinte normal.

 

Ainda me dói o pescoço de tanto olhar para o ar. Mas também me dói a alma de pagar tanto e ficar em terra. Se tivesse a felicidade de ter embarcado com eles, neste momento não me doía o pescoço, pois estaria a olhar cá para baixo e isso é muito semelhante à minha postura normal, que é andar sempre cabisbaixo. Agora, não tenho dúvidas, durante o tempo de duração da viagem, eu estaria cheio de saudades dos que ficaram.

 

Se eu estivesse com eles lá em cima, pediria mesmo uma oração para que o divino nos perdoasse a maldade de estarmos a viver muito acima das possibilidades dos que ficaram lá em baixo. É que a diferença que vai desde cá de baixo até lá acima é muito grande. Estou a pensar em muitos milhares de metros, que representam muitos milhares de euros, que tantos buracos tapavam cá em baixo.

 

De algum modo, estas reflexões atenuam as muitas saudades que não deixo de ter deles. Assim, não deixo que essas saudades me levem ao desespero de me lavar em lágrimas, só de pensar que vou estar uma data de dias sem os ver, nem sequer ouvir falar deles e das suas peripécias de viajantes que, longe do seu país, ninguém vai falar deles, evitando que chorem com saudades daqueles que não estão com eles.            

 

Nós, os portugueses, somos uns sentimentalões e fazemos questão de o demonstrar em todas as circunstâncias. Daí que esta coisa das saudades nos roam a alma sempre que haja uma separação. Ainda que seja apenas uma volta por Madrid com ida no TGV e volta no tal de bitola estreita. Quanto mais no exagero de pôr uma máquina voadora a dar quase uma volta ao mundo, só para se dizer que se bate o record de permanência acima de nós.

 

Mas também somos sentimentalões quando vemos que, por exemplo, o estádio nacional, um palco de tão nobres e relevantes acontecimentos vai receber, neste fim-de-semana de tão má memória, a final da taça de Portugal de 2012, sem a presença de tantos viajantes, retirando-lhe uma parte do colorido habitual, sobretudo pelos lugares vazios que mostrarão o cinzento do betão, a fazer lembrar o cinzento da ausência desses viajantes.

 

O Estádio Nacional e todo o Jamor vão ressentir-se daquela alegria dos piqueniques. Mas quem é que vai ter vontade de rir e, sobretudo, vontade de comer e de beber, quando as saudades vão apertar aqueles corações, vão esquecer que vai haver um jogo de futebol, onde os gritos de guerra dos adeptos dos clubes, vão esquecer completamente que haverá uma bola a rolar no relvado encharcado de lágrimas.

 

E no fim do espetáculo, se é que vai haver espetáculo, eu nem quero pensar na tristeza que vai ser a entrega daquela taça. Estou mesmo convencido que vamos assistir a largos minutos de silêncio, antes e depois dessa entrega. A própria taça estará a transbordar de lágrimas. Quem a entregar chorará convulsivamente. Quem a receber, jurará que haverá uma cerimónia posterior para uma entrega simbólica. Saudades. Tantas saudades.