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afonsonunes

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19 Mai, 2012

Estranguladores

 

Obviamente que não vou pedir uma gravata de corda para ninguém, apesar de ser conhecida uma data de candidatos que reuniam todas as condições para se pendurarem nela. Porém, isto nem sequer é conversa que se tenha em qualquer sonho no isolamento do quarto, quanto mais neste local frequentado por gente que tem, e ainda bem, um profundo sentimento de repúdio por enfeites desse tipo.

 

Contudo, há cada vez mais descobertas de engravatados que têm passado a vida a estrangular o país, não colocando cordas em gargantas de pessoas, mas usando as mãos e os miolos para desviar dele, os meios que poderiam mantê-lo em condições de poder respirar normalmente, sem o sufoco que lhe é imposto. E, país que sufoca é país estrangulado, sempre por alguém que devia ser logo chamado a prestar contas.

 

Tal só é possível, porque temos um país que, em lugar de ter controladores atentos a todas as manobras e a todos os desvios, no ar, no mar e em terra, temos antes muitos descontrolados que tudo fazem para que os choques sejam permanentes, na certeza de que, na confusão que se lhes segue, será fácil encontrar e retirar algo que lhes interesse do meio dos cacos dos estragos das vítimas desses choques.

 

O estrangulamento do país tem alternado com períodos de reanimação mais ou menos difíceis. Já se tornou num ciclo vicioso, o facto de se dar completa carta-branca aos estranguladores para fazerem o seu trabalhinho com todo o à vontade para, logo a seguir, chamarem a emergência salvadora para o fornecimento do oxigénio regenerador.

 

Depois, questiona-se muito, qual a identidade dos estranguladores, havendo quem tenha sempre na ponta da língua uma certeza que não merece, nem tolera, contraditório. Normalmente, aponta-se como estrangulador, aquele que chamou a emergência, sem olhar a que o estrangulador fugiu a tempo de ninguém lhe poder deitar a mão, evitando o perigo de lhe apertarem os seus próprios gasganetes.

 

São muitos os estranguladores do país que têm andado encobertos pelos seus pares e pelos seus comparsas. Como em tudo na vida, não se consegue encobrir tudo durante muito tempo. De há uns tempos para cá, alguns aguardam calmamente que os seus crimes prescrevam, deixando as preocupações entregues aos seus bons e caros advogados pagos, quantas vezes, com o dinheiro que devia ter sido recuperado.

 

Outro grupo de estranguladores entendeu mudar de país, escolhendo um daqueles que não deixam que ninguém deite a mão aos seus protegidos, bem como aos seus haveres, que até dão muito jeito para disfarçar a pobreza que os rodeia. Porque há quem se sinta bem assim, rodeado de pobreza, porque não há nada mais confortante para os endinheirados, que um batalhão de pobres para os servir.

 

Depois temos aqueles estranguladores que já passaram pelas prisões dos ricos, onde experimentaram o conforto e o bem-estar dos seus aposentos, comparados com os das celas dos seus vizinhos do mesmo condomínio bem fechado. Nem mesmo assim por lá permanecem por muito tempo. O dinheiro, sempre o dinheiro e os bons advogados, lá conseguem regressos pomposos às pomposas casas.

 

E assim a comunicação social faz uma festa que dura muitos dias, dá ocupação a muitos meios materiais e humanos, gasta muito dinheiro e deixa de falar dos seus criminosos de conveniência e de estimação. Daqueles que, por mais que lhes façam julgamentos diários, não há meio de aparecerem nos espetáculos em direto. Por muito que falhem os desejos de quem julga ter todo o poder discricionário do mundo.

 

Entretanto, à falta de melhor, vão ter de se contentar com as novelas de lima-limão que tão caras ficaram já ao país. São um pouco mais amargas que laranjas pouco maduras, mas vão-se descobrindo muitos limoeiros no meio dos laranjais. Por onde circulam muitos dos grandes estranguladores do país, pelo menos em relação aos que já foram por ali identificados. E por lá continuam.