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afonsonunes

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20 Mai, 2012

Polvo com laranja

 

Hoje deu-me para a culinária, a bela arte de comer bem ou a maneira de ser comido quando toca a pagar a conta, se nos aventuramos muito a sentar-nos a mesas que não conhecemos. Porque os bons chefes nem sempre são tão bons a mexer com os números como a meter as mãos nos tachos e nas panelas. Mas, hoje o chefe sou eu e, sem meter as mãos em números, talvez as meta em alguns tachos.

 

Nunca me lembrei de falar sobre essa especialidade que é o pato com laranja. Talvez porque muitas vezes me sinta pato no meio deste laranjal. Mais, não me custa nada dizer que até chego a sentir-me um grande pato bravo, quando toca a pagar as contas que os meus chefes me apresentam todos os dias, cujos números estão cada vez mais em desconformidade com os que constam da minha receita mensal.

 

Receita essa que não tem nada a ver com as receitas baratinhas que tiro da cabeça para confecionar os pratos que tenho a pretensão de inventar. E, logicamente, ninguém ficará surpreendido se eu for influenciado pelos cheiros que me excitam a pituitária quando percorro aquelas ruas mais ou menos estreitas onde outros chefes muito melhores que eu, praticam as suas aventuras.

 

Ontem cheirava-me a polvo por todo o lado. Depois, sem saber bem porquê, falava-se muito em laranjas. Ora a minha tendência não estava muito inclinada para patos como me sugeria a laranja. Foi então que, eureka!... Descobri que podia tentar uma novidade que, assim à primeira vista, tinha tudo para fazer um sucesso original na minha mesa. Isso mesmo: Polvo com laranja.

 

Aí estava uma maneira de aproveitar dois ingredientes da época, sempre muito mais em conta que aqueles produtos já muito onerados com longas viagens e refrigerações prolongadas, pior ainda se vierem dos campos mecanizados do estrangeiro, onde tudo cheira a diesel e todos são muito mais abusadores nos preços que aqui, no nosso bem tratado, bem regado e bem cheirado laranjal.

 

No dizer dos transeuntes o polvo era um colosso, com aqueles tentáculos enormes, facto que o tornava tão barato que era vendido pelo preço da uva mijona. Aproveitei esta oportunidade única e abasteci-me como deve ser, tendo em vista uma confeção abundante do meu, por enquanto, imaginário pitéu. Só me faltavam umas tantas laranjas sumarentas, que aviei de caminho.

 

Fiquei surpreendido com a rapidez com que toda a grande plebe reagiu, desatando a falar do polvo como se de repente destronasse os habituais pitéus nacionais. Mas é que nem de bacalhau com batatas e couves, nem de sardinhas com tomates, se diziam umas simples palavras de propaganda. Parece que a gula informativa só poderia ser acalmada, ou satisfeita, com o polvo gigante.

 

Coisa extraordinária, foi o facto de se associar muito a lima à laranja. Ora, polvo com laranja, não seria a mesma coisa que polvo com lima. Isto, para a confeção da minha receita, claro, mas para os apreciadores simples do cheiro dos citrinos, a coisa estava bem assim. Até porque também temos de admitir que o polvo, principalmente o gigante, provoca enjoo a muita gente que gostava mais da laranja sem polvo.

Talvez por isso, também as preferências informativas iam para o realce da lima sobre a laranja. Sempre com a dimensão do polvo em destaque, banindo mesmo outros cozinhados habituais de há largos anos, das suas longas tiradas dos últimos dias. Preferiram fazer acompanhar o polvo de uma abundante salada de relvas com pressão e uns aromas de coiso de pereira. Tudo ótimo para a saúde dos portugueses.

 

Não posso terminar sem deixar os resultados da minha experiência culinária: Polvo com laranja. Não vou divulgar os pormenores da execução da receita, pois é compreensível que os meus direitos de autor estejam preservados. Direi apenas que o polvo ficou muito tenrinho, mesmo macio, apesar de ser velho e gigante. Quanto ao sabor, laranja com muitas pitadas de lima, estava uma delícia. Façam. Provem.