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afonsonunes

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24 Mai, 2012

Vamos de carrinho

 

Se vamos de carrinho é porque tudo está a correr bem. E disso não pode haver a mínima dúvida, pois os entendidos não se cansam de garantir que tudo o que dizem é a pura e simples das verdades. Ora os entendidos não podem ser os que estão de fora da matéria, mas sim os que estão por dentro, os que trazem todos os números perfeitamente encaixados na caixa dos pirolitos.

 

É verdade que os pouco ou nada entendidos da nossa praça, e até alguns dos das altas esferas internacionais, têm por hábito dar aos acontecimentos políticos um certo ar de mentira, só para criar emoções nos espíritos mais fracos. Isto porque até eles sabem de cor e salteado que o povo acredita muito mais em montes de mentiras que numa única verdade dos entendidos que governam.

 

É um grande, um enorme erro, que os governantes cometem a toda a hora, quando garantem que nunca mentem. E, pior ainda, quando dizem e repetem que tudo o que fazem é absolutamente transparente. Nem eles sabem nos sarilhos em que se metem quando enveredam por esse caminho. Poucos metros andados e já estão a cair na armadilha mais rudimentar que lhes metem debaixo dos pés.

 

Se tivessem um pouco de bom senso adotariam outra estratégia. Começariam por dizer que ninguém melhor que eles sabe contar boas mentiras. Acrescentariam depois que não há coisa mais bonita, e que maior satisfação dê a um político, que mostrar que é capaz de transformar mentiras em verdades, ao longo de todo o seu mandato.

 

Porque, dessa maneira, sendo a mentira declarada e apregoada como a base do seu discurso, desde a primeira hora da campanha eleitoral, com total repúdio por tudo o que pudesse vir a ser considerado como verdade, jamais esse político poderia vir a ser acusado de mentir ou de ser mentiroso, tal como acontece, e tem acontecido, a todos os anjinhos que se metem nessas andanças. 

 

Podemos dizer, até porque é isso mesmo que nos diz quem sabe, que vamos de carrinho. Que ninguém me venha dizer que ir de carrinho quer dizer que não vamos bem. Por mim não me queixo, pois bem me basta meia dose de otimismo que, em tempo de meia dose de tudo, já é uma sorte não ficar a olhar para as sobras que os pançudos deixam na recheada travessa à refeição.

 

Se vamos de carrinho é melhor não pensarmos em comidas e bebidas pois daí só nos podem vir dissabores. Enquanto aceleramos, é de toda a conveniência estarmos atentos aos ruídos que podem constituir uma ameaça à nossa segurança. Ameaça que parece surgir de todos os buraquinhos do caminho e até dos telemóveis, principalmente, dos de última geração.

 

Anda aí uma onda com aspeto de segunda vaga, que perturba e mete medo a quem não ouve as sirenes de alarme. Ela já não é novidade porque foi muito falada nos tempos em que íamos noutro carrinho. Chamaram-lhe então claustrofobia democrática. Nunca percebi porque lhe chamaram democrática. Talvez percebendo as teorias das verdades e das mentiras. Todas democráticas.

 

Há palavrões que metem medo e estes dois assustam mesmo. Sem qualquer motivo à vista. Porque, se esses palavrões foram uma verdade na boca dos seus autores de então, eles são hoje uma mentira na boca desses mesmos amigos da verdade. Só há aqui uma pequena dúvida que não custa nada a compreender. Quem pode nunca mente, ao contrário de quem diz o oposto. Está à vista.

 

Se vamos de carrinho bem podemos devê-lo a quem nos conduz. Isso é sinal de que vamos em boa estrada onde os pneus do carrinho deslizam às maravilhas sem os furar. Agora, ainda podemos ter gasolina e pagar portagens. Quando não pudermos ir de carrinho, apenas temos a hipótese de ir de carroça, pois se nos arriscamos a ir a pé, não nos faltarão bolhas nos pés.