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afonsonunes

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Ouvi dizer que na Austrália havia muitos portugueses, mas sobre chaparros nada me constou. Depreendo por isso que, até há poucos dias, ainda não tenha lá chegado nenhum. Coisa incompreensível dada a sua existência em larga escala nos montados alentejanos e algo dispersos do Minho ao Algarve. Aqui, no Algarve, é muito provável que se encontre um ou outro no meio das muitas amendoeiras.

 

Então, é muito estranho que entre tantos portugueses radicados na Austrália, não se encontrasse um sequer, que se tivesse lembrado de levar para lá um chaparro. É certo que os alentejanos não têm grandes tradições de emigração. E então para a terra dos cangurus muito menos. Mas é muito estranho que não tenha havido um algarvio inteligente e amigo do país que não tenha levado um chaparro para lá.

 

Aposto que não tardará que os muitos milhares de portugueses, agora residentes australianos, possam deslumbrar a vista com uma paisagem alentejana em plena Austrália, graças aos muitos chaparrais que vão multiplicar-se, se um qualquer canguru mais reguila não se lembrar de roer o espécimen ali depositado por um digníssimo algarvio, ilustre português e nosso muito estimado presidente.

 

Estou convencido que os serviços secretos australianos, muito mais atentos que os nossos, não permitirão tal façanha ao imaginário canguru destruidor, senão lá se ia a cortiça e todas as rolhas que muita fama dão aos nossos queridos dirigentes de todos os níveis, e muito dinheiro faz entrar nos circuitos financeiros mais eficientes e limpos da nossa florescente indústria exportadora.

 

Não pretendo de forma alguma insinuar que os cangurus australianos são mais destruidores que os nossos homens rolhas, ou que os nossos serviços secretos não são tão competentes, que não consigam acompanhar a par e passo o que fazem esses cangurus, que não podemos deixar que se movimentem à vontade, de modo a não preservar a integridade física do frágil chaparro agora plantado.

 

Tanto mais frágil por ter sido plantado em terreno arenoso, o que muito dificulta o enraizamento do pequenino chaparro. Se tivesse a felicidade de ter sido plantado num terreno de verdejantes relvas, a sua segurança estava tão garantida como a de um forte e poderoso carvalho. Pelo menos eu já me habituei a relacionar força, segurança e sombras com os carvalhos e as relvas que nos protegem a vida.

 

Há uma certa tendência para ver no chaparro aquela árvore que apenas nos dá cortiça, só porque somos os campeões das rolhas a nível mundial. É uma visão muito restrita de um chaparral digno desse nome. E uma ofensa às restantes virtualidades do agora glorificado chaparro bebé. Já vi que ninguém se lembra que ele virá a encher o chão da sua sombra com um farto manto de bolota.

 

Também já vi que ninguém se lembra que esse farto manto de bolota vai engordar varas e varas de porcos que farão as delícias dos apreciadores de presuntos. Presuntos que servirão para que os homens rolhas de todos os níveis presenteiem e sejam presenteados no circuito das compensações devidas pelos negócios onde os favores substituem os contratos assinados com o selo da lei.     

 

Os muitos milhares de portugueses na Austrália, só agora vão dar valor ao facto de terem nascido portugueses. E também só agora vão poder dar o devido valor ao Alentejo e ao Algarve. Os seus produtos regionais vão apaziguar muitas saudades do toucinho e do chouriço alentejanos, mas também do bolo-rei com amêndoas algarvio. Eventualmente, e como novidade, com uma ou outra bolota caramelizada.

 

Até os cangurus australianos vão passar a vida à sombra dos chaparros. Nas suas bolsas marsupiais não faltarão as bolotas que, certamente, vão passar a ser os berlindes das suas crias, ou as primeiras bolas de rugby dos seus primeiros dias de vida. E assim se prova que haverá sempre portugueses de grande dimensão a dar novos brinquedos ao mundo.