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afonsonunes

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29 Mai, 2012

Tricas partidárias

Estou de acordo com toda a gente que pensa que o único problema que enfrentamos, com muita coragem, diga-se de passagem, é o jogo das tricas partidárias. Mas que seria de nós se não as tivéssemos e, em lugar delas, nos brindassem com um joguinho das escondidas, de preferência à moda antiga. Também podia ser um joguinho de cabra-cega, que lá ia tudo dar ao mesmo.

 

As tricas partidárias têm-se revelado de um encanto que nem Coimbra tem na hora da despedida, pois a ligeireza jovem e o humor estudantis são superados pelo rigor formal das leis e a capacidade de levar a sério todas as brincadeiras em que o povo se mete. É evidente que o povo se mete a brincar de boa-fé, quando escolhe os que têm melhores caras de fabricar tricas dos partidos.

 

Há quem invente mil e um argumentos para descrever a situação em que nos encontramos e dois mil e dois argumentos para encontrar os culpados por essa situação. Nada mais errado que andar a falar de olhos vendados. O joguinho é outro e está mais que clarificado. Tudo isto são tricas partidárias que, como diz alguém muito entendido na matéria, não nos devemos meter nessas coisas.

 

Portanto, obviamente que quem não estiver bem que se mude pois, está largamente provado, não faltam oportunidades para que todos vamos saindo de onde estamos, para depois entrarmos onde quisermos. Há portas abertas por todo o lado. Quase todas vão dar à rua. Mas há lá coisa mais arejada que a rua. Agora, então, com estes dias solarengos e a temperatura a subir, é o delírio.    

 

Temos um país maravilhoso onde não precisamos de novas oportunidades para singrar na vida. Temos as velhas, que nunca estiveram a dar tanto como agora. E agora temos a rua onde, quem tiver iniciativa, tem tudo para triunfar. Quem tiver unhas toca guitarra. E se tiver boa voz, aprende umas cantiguinhas e canta. Pode sentar-se no chão, num lugar frequentado. Basta pôr o boné no chão à sua frente.

 

Mas quem não tiver jeito para essas coisas pega nas marmitas e vai meter-se na fila para a porta de uma instituição de solidariedade social. A solidariedade não é palavra vã e agora a palavra instituição, significa que o país se distanciou definitivamente dos velhos modelos europeus de diversas caridades estatais, todas de faz de conta. Nós damos bons exemplos de como do velho se faz novo.

 

Isto são apenas dois exemplos de como as tricas partidárias estão a tornar-se nos verdadeiros motores de uma revolução mais pacífica que a dos cravos, pois aqui nem são precisos os canos das espingardas para colocar os ditos. Aliás, o povo deixou de sair à rua, deixou de pôr o cravo na lapela e já nem fala senão de mão em frente da boca. Pela simples razão de que já conquistou tudo pelo que ansiava.

 

Graças às tricas partidárias, que tudo resolvem, que tudo dão. Daí que o povo já esteja realizado. Estou mesmo convencido que não estará longe o dia em que o país não precisa de eleições, porque não vai precisar de governo, nem de presidente, nem de contribuintes. Os homens e as mulheres das tricas partidárias caminham no sentido de estarem cem por cento de acordo em tudo.

 

É evidente que também não vamos precisar mais de secretas, nem de discretas, nem de patetas, tão pouco. Ninguém vai sair, nem ninguém vai entrar. Ninguém vai mandar ninguém embora, nem ninguém se vai embora. Quem está, está de pedra e cal e, para quem tiver dúvidas, se der para alguém sair, será para sair muito mais forte e poderoso que antes. Para fazer ainda mais e melhor daquilo que sempre fez.

 

Se alguém andava com ilusões de que podia chegar a um qualquer pote, que tire daí o sentido. O pote está bem entregue. E bem recheado de tricas partidárias perante as quais o país se curva e dentro das quais os maiorais se sentem unidos e solidários para que não haja motivos de preocupações. Nem da parte deles, confortáveis como estão, nem da parte do povo, agora feliz como nunca esteve.